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Monografia
- Mônica Valentim |
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gentilmente cedida pela autora |
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UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES
CENTRO DE PÓS-GRADUAÇÃO DO SUL DE MINAS
AUTISMO INFANTIL: “o enigma da Esfinge”.
• Mônica Oliveira da Silva Vicente Valentim
• Especialização em Psicomotricidade
• Orientadora Educacional e Vocacional
Dedico a Matheus Filipe, meu filho, que
tem sido um verdadeiro presente de
Deus para mim, permitindo-me
crescer a cada dia, na busca pelo
decifrar do “enigma da Esfinge”.
Hamlet é, desde o começo, culpado de ser.
É-lhe insuportável ser.
O problema, o crime de existir põe-se para ele
nos termos que são os seus, to be or not to be,
o que o empenha irremediavelmente
no ser como o articula bastante bem.
Lacan (1959)
SUMÁRIO
1 – JUSTIFICATIVA.
2 – OBJETIVOS.
3 – INTRODUÇÃO.
4 – CONCEITOS E CLASSIFICAÇÃO DAS SÍNDROMES AUTÍSTICAS.
4.1 – ORIGEM.
4.2 – A VISÃO ATUAL.
5 – OS DÉFICITS NO AUTISMO: COGNITIVOS OU AFETIVOS?
6 – ASPECTOS GENÉTICOS.
7 – NEUROBIOLOGIA DO AUTISMO INFANTIL – ANATOMIA PATOLÓGICA.
8 – HIPÓTESES NEUROFISIOLÓGICAS.
9 – DIAGNÓSTICO E INVESTIGAÇÃO CLÍNICA E LABORATORIAL.
10 – TRATAMENTO: ASPECTOS GERAIS.
10.1 – FARMACOTERAPIA NO AUTISMO.
10.2 – TERAPIA COMPORTAMENTAL.
11 – O AUTISMO NA ABORDAGEM PSICANALÍTICA: DIREÇÃO DO TRATAMENTO COM
CRIANÇAS AUTISTAS E PSICÓTICAS.
12 – CONCLUSÃO.
13 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
1 – JUSTIFICATIVA
O interesse pelo Autismo Infantil tem sido crescente no Brasil, e uma
prova cabal disto é o grande número de congressos, encontros e grupos de
estudos que tem-se dedicado a este assunto.
Apesar de todas as dúvidas que cercam esta síndrome, cabe neste momento
abordarmos conhecimentos fundamentais sobre fatores etiológicos, defeitos
neuroquímicos, influências genéticas, tratamento farmacológico, aspectos
familiares, etc. Pareceu-nos que um trabalho voltado para o
descortinamento do mistério que envolve o tema, já justificaria a
abordagem do mesmo.
2 – OBJETIVOS
1 – Abordar o conceito e classificação das síndromes autísticas, aspectos
genéticos e hipóteses neurofisiológicas.
2 – Permitir o conhecimento dos diversos tratamentos disponíveis:
farmacoterapia no autismo e terapia comportamental.
3 –Abordar o autismo sob a ótica da Psicanálise.
3 – INTRODUÇÃO
O Autismo Infantil é uma condição neuropsicológica conhecida, ao menos sob
esta denominação, desde a década de 40, quando foi descrita, de forma
magistral por Kanner. Este autor identificou, entre crianças
“deficientes”, algumas que se diferenciavam das demais por um
comportamento peculiar, caracterizado, entre outros sinais e sintomas, por
dificuldade extrema em estabelecer relações interpessoais.
O passar dos anos e novos trabalhos mostraram a excepcional habilidade
clínica de Kanner, cujas descrições do Autismo Infantil são válidas e
insuperáveis.
Mas, se por um lado das descrições clínicas iniciais ainda podem ser
aceitas sem contestação, o mesmo não pode ser afirmado com relação à
etiologia, tratamentos e prognóstico, tais como foram inicialmente
descritos. O Autismo Infantil não apenas é a condição neuropsiquiátrica da
infância sobre a qual mais se tem escrito, como, também é a que mais tem
despertado curiosidade, promovido celeumas e concorrido para o trabalho
conjunto de profissionais de diversas áreas que lidam com a saúde mental e
comportamento infantil.
Entretanto, apesar do grande número de profissionais, projetos e pesquisas
já realizadas e em andamento, vários aspectos da síndrome do Autismo
Infantil permanecem obscuros. Sabemos, já, e sem sombra de dúvidas, que
fatores emocionais, dinâmicos, não podem ser responsabilizados, de forma
isolada, pelo quadro de Autismo Infantil. Sabemos também, cada vez de
forma mais clara, que fatores biológicos estão presentes na grande
maioria, senão em todos os casos de Autismo Infantil.
Se a leitura deste trabalho puder responder a algumas questões, suscitar
dúvidas e propiciar a reflexão sobre os temas abordados, o nosso trabalho
terá valido a pena.
4 – CONCEITOS E CLASSIFICAÇÃO DAS SÍNDROMES AUTÍSTICAS.
O autismo é uma síndrome de etiologia puramente orgânica, para a qual
existem, presentemente, três definições que podemos considerar como
adequadas:
1 – A da ASA – American Society for Autism (Associação Americana de
Autismo):
“O Autismo é uma inadequacidade no desenvolvimento que se manifesta grave
por toda a vida. Acomete cerca de vinte entre cada dez mil nascidos e é
quatro vezes mais comum entre meninos do que meninas. Não se conseguiu até
agora provar nenhuma causa psicológica, no meio ambiente destas crianças,
que possa causar a doença.
Os sintomas, causados por disfunções físicas do cérebro, são verificados
pela anamnese ou presentes no exame ou entrevista com o indivíduo.
Incluem:
1º) Distúrbios no ritmo de aparecimentos de habilidades físicas, sociais e
lingüísticas.
2º) Reações anormais às sensações. As funções ou áreas mais afetadas são:
visão, audição, tato, dor, equilíbrio, olfato, gustação e maneira de
manter o corpo.
3º) Fala ou linguagem ausentes ou atrasados. Certas áreas específicas do
pensar, presentes ou não. Ritmo imaturo da fala, restrita compreensão de
idéias. Uso de palavras sem associação com o significado.
4º) Relacionamento anormal com os objetos, eventos e pessoas. Respostas
não apropriadas a adultos ou crianças. Uso inadequado de objetos e
brinquedos”. *
2 – A da Organização Mundial de Saúde, contida na CID-10 (10ª
Classificação Internacional de Doenças, de 1991), classifica como;
“ Um transtorno invasivo do desenvolvimento, definido pela presença de
desenvolvimento anormal e/ou comprometimento que se manifesta antes da
idade de 3 anos e pelo tipo característico de funcionamento anormal em
todas as três áreas: de interação social, comunicação e comportamento
restrito e repetitivo. O transtorno ocorre três a quatro vezes mais
freqüentemente em garotos do que meninas”.
_______________________________________________________________________
* Extraída do livro Autismo e Outros Atrasos do Desenvolvimento do Dr E.
Chirstian Gauderer
3 – A do DSM – IV – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders
(Manual Diagnóstico e estatístico dos Distúrbios Mentais), da associação
Americana da Psiquiatria, onde apresenta o seguinte critério de
diagnóstico:
A – Se enquadra em um total de seis (ou mais) dos seguintes itens:
(1) Comprometimento qualitativo em interação social, com pelo menos duas
das seguintes características:
a) Acentuado comprometimento no uso de seus múltiplos comportamentos não
verbais regulam a interação social, tais como contato olho a olho,
expressões faciais, posturas e gestos;
b) Falha no desenvolvimento de relações interpessoais apropriadas à idade;
c) Ausência da busca expontânea em compartilhar de divertimentos,
interesses empreendimentos com outras pessoas.
(2) Comprometimento qualitativo na comunicação, em pelo menos um dos
seguintes itens:
a) Atraso ou ausência total no desenvolvimento da fala (sem a tentativa de
compensá-la por meio de comunicação por gesto ou mímica)
b) Acentuado comprometimento na habilidade de iniciar e manter uma
conversação, naqueles que conseguem falar.
c) Linguagem estereotipada, repetitiva ou idiossincrática.
d) Ausência de capacidade, adequada à idade, de realizar jogos de
faz-de-conta ou imitativos.
(3) Padrões de comportamentos, interesse ou atividades repetitivos ou
estereotipados em pelo menos um dos seguintes aspectos:
a) Preocupação circunscrita a um ou mais padrões de interesse
estereotipados e restritos, anormalmente, tanto em intensidade quanto no
foco.
b) Fixação aparentemente inflexível em rotinas ou rituais não funcionais.
c) Movimentos repetitivos e estereotipados.
d) Preocupação persistente com partes de objetos.
B – Atraso ou funcionamento anormal antes dos três anos, em pelo menos uma
das seguintes áreas: interação social, linguagem de comunicação social e
jogos simbólicos ou imaginativos.
C – O distúrbio não se enquadrar na síndrome de Rett ou no Distúrbio
Desintegrativo da criança.
4.1 – ORIGEM
Em 1943, Leo Kanner descreveu, sob o nome de “Distúrbios Autísticos do
Contacto Afetivo”, um quadro em que ele caracterizou por “autismo extremo,
obsessividade, esteriotipias e ecolalia”, relacionando-o com fenômenos da
linha esquizofrênica.
Influenciado pela Psicanálise e pela Psicologia Associassionista, Bleuler
(1985) dá ao termo autismo o conceito de afastamento da realidade com
predominância de vida interior.
Entretanto, Minkowsky (apud Parnas e Bovet, 1991) não considera que a
predominância da vida interior seja componente necessário no autismo,
introduzindo o conceito de autismo pobre.
A questão do autismo continuou a ser estudada por Kanner no decorrer de
sua vida. Em 1949, passou a referir-se ao quadro com o nome de “Autismo
Infantil Precoce”, descrevendo-o a partir de uma dificuldade profunda no
contato com as pessoas, um desejo obsessivo de preservar as coisas e as
situações, uma ligação especial aos objetos, a presença de uma fisionomia
inteligente e alterações de linguagem que se estendiam do mutismo a uma
linguagem sem função comunicacional, refletindo as dificuldades no contato
e na comunicação interpessoal. Assim, linguagem revelava inversão
pronominal, neologismos e metáforas. A “síndrome”, conforme é, então,
citada por Kanner, é aceita como um padrão psicopatológico com uma
possibilidade diagnóstica inequívoca.
Revisando seu próprio conceito de Autismo Infantil, Kanner (1968),
continua referindo as falhas em que se produzem evidências neurológicas,
metabólicas ou cromossômicas no Autismo Infantil. Ao mesmo tempo, frisa, a
importância do diagnóstico diferencial com deficientes mentais e afásicos.
Em seu fallow-up dos primeiros casos descritos, Kanner (1973) observa as
diferenças na evolução dos casos observados trinta anos antes,
questionando-se sobre o porquê das diferenças observadas nessa evolução e
propondo que explorações bioquímicas poderiam abrir novas perspectivas no
estudo do Autismo Infantil.
Em 1976, surge o famoso livro de Ritvo sobre o autismo e, nele, podemos
observar uma mudança radical. Fala-se em um problema de desenvolvimento
frisando que muitos estudos já referiam as crianças autistas como
possuidoras de déficits cognitivos.
Quando citamos Ritvo (1976), o diagnóstico diferencial por ele proposto já
refere doenças específicas que podem ocorrer em associação com o autismo,
ressaltando que a síndrome autística seria decorrente de uma patologia de
Sistema Nervoso Central específica.
4.2-A VISÃO ATUAL
Autismo é hoje considerado como uma síndrome comportamental com etiologias
múltiplas e curso de um distúrbio de desenvolvimento (Gillberg, 1990),
usualmente combinado com déficits de linguagem e alterações de
comportamento.
5 – OS DÉFICITS NO AUTISM0: COGNITIVOS OU AFETIVOS?
a) A Teoria Afetiva:
Uma das propostas de compreensão do déficit social do autismo reporta-se á
teoria afetiva, originalmente proposta por Kanner (1943). Várias versões
foram propostas no decorrer do tempo, sendo interessante referirmos a de
Hobson (apud Baron-Cohen, 1988) com seus quatro grandes axiomas, a saber.
I – Crianças autistas tem falhas constitucionais de componentes de ação e
reação necessários para desenvolvimento das relações pessoais com outras
pessoas.
II – As relações pessoais são necessárias para a constituição do mundo
próprio e com os outros.
III – Os déficits das crianças autistas na participação social
intersubjetiva têm dois resultados especialmente importantes:
• déficit relativo no reconhecimento de outras pessoas como portadoras de
sentimentos próprios, pensamentos, desejos, intenções;
• déficit severo na capacidade para abstrair, sentir e pensar
simbolicamente.
IV – Grande parte das inabilidades de cognição e linguagem das crianças
autistas pode refletir déficits que têm íntima relação com o
desenvolvimento afetivo e social, e/ou déficits sociais dependentes da
possibilidade de simbolização.
b) A Teoria Cognitiva
Contrapondo-se à teoria afetiva, Baron-Cohen (1988, 1990, 1991) e Frith
(1988) propõe uma teoria cognitiva para autismo.
Como ponto central, essa visão também considera que a dificuldade central
da criança autista , é a impossibilidade que possui para compreender
estados mentais de outras pessoas. Essa habilidade tem sido chamada por
esses autores de Teoria da Mente porque envolve o conceito da existência
de estados mentais que são utilizados para explicar ou prever o
comportamento de outras pessoas.
A base dessa visão poderia ser resumida da seguinte maneira:
I) Nossas crenças sobre conceitos referentes ao mundo físico podem ser
chamadas de “representações primárias”;
II) Nossas crenças sobre o estado mental das pessoas (como, por exemplo,
seus desejos) são representações e representações. Podem, então, ser
chamadas de “representações secundárias” ou meta-representações.
A teoria cognitiva sugere que:
• O autismo é causado por um déficit cognitivo central;
• Um desses déficits é referente à capacidade para meta-representação.
• A capacidade meta-representacional é obrigatória em padrões simbólicos
(como nos jogos).
6 – ASPECTOS GENÉTICOS
A importância de fatores genéticos como determinantes do Autismo Infantil
tem sido amplamente investigada. Dentro desta vertente, três aspectos têm
sido estudados:
(1) A concentração familiar de casos de AI: autismo é mais comum entre
irmãos de crianças afetadas;
(2) a concentração familiar de outras condições e/ou características em
famílias d autistas: a presença de uma série de alterações discretas,
porém possivelmente relacionadas com o AI em parentes próximos de
indivíduos afetados e
(3) a conhecida associação entre AI e várias condições de origem genética
(Folstein e Piven, 1991)
Uma vertente interessante, quando aos aspectos genéticos , refere-se ao
estudo da associação observada entre o AI e várias desordens que têm
determinação genética. As associações observadas não parecem ser
ocasionais.
Uma destas refere-se ao marcador cito-genético localizado no Xq 27.3 com a
síndrome do sítio frágil do cromossomo X [fra (x)] ou síndrome de
Martin-Bell. Sabe-se ser a segunda mais comum causa cromossômica de
retardo mental. Pode apresentar-se com algumas características fenotípicas
mais ou menos óbvias e tem sido observada associando-se a quadros de
autismo. A ocorrência desta anormalidade cromossômica tem sido encontrada
em 0% a 16% e pacientes autistas (Blomquist e col., 1985; Goldfine e col.
1985).
Os mecanismos genéticos em jogo não são, ainda, bem compreendidos. Uma vez
que estamos diante de uma síndrome comportamental que tem múltiplas
etiologias, é muito possível que tenhamos, também, uma heterogenecidade
genética.
Nos indivíduos autistas que não apresentam evidências de desordens
genéticas, uma variedade de mecanismos poderiam estar em jogo tais como
autossômico recessivo, herança ligada ao X, modelos multifatoriais e
poligênicos (Smalley, 1991)
Para resumir os estados envolvendo os aspectos genéticos no AI, podemos
dizer que há algumas condições geneticamente determinadas que podem se
associar ao AI. Entre os casos de etiologia desconhecida, há evidências no
sentido de uma maior probalidade de irmãos de autistas serem, também,
afetados quando comparados com a população geral.
Há evidências de que alguns fatores podem modificar esta propensão
genética tais como o sexo do indivíduo, QI e insultos pré e perinatais.
7 – NEUROBIOLOGIA DO AUTISMO INFANTIL – ANATOMIA PATOLÓGICA.
Bauman e Kemper (1981, 1984, 1986) estudaram a anotomia patalógica de
quatro pacientes. Em todos eles, o cérebro mostrava-se bem constituído não
havendo lesões evidentes, alterações anatômicas dos giros nem mielinização
e não havia sinais de gliose. Ao nível microscópio, encontraram um aumento
na densidade de neurônios por unidade de volume e redução no tamanho dos
neurônios no complexo do hipocampo bilateralmente, no subículum, córtex
entorrinal, certas partes do complexo amigdaliano, campos mamilares e
núcleo septal medial. O mesmo estudo descreveu o que já mencionamos acima,
anormalidades microscópicas ao nível do cerebelo na forma de uma
diminuição no número de células de Purkinje e, em menor grau, das
granulares. Estas alterações foram observadas principalmente no neocórtex
cerebelar e, em menor grau, no cerebelo.
É importante deixar assinalado aqui que o cerebelo modular os níveis
telencefálicos da serotonia (5-HT), dopamina (DA) e noradrenalina (NA),
neurotransmissores que podem ser encontrados em quantidades alteradas no
autista. Por outro lado, o cerebelo modula a atividade do hipocampo e
envia projeções à amígdala, duas regiões consideradas disfuncionais no
autismo.
8 – HIPÓTESES NEUROFISIOLÓGICAS
Vários autores têm tentado definir quais os processos neurofisiológicos
que levariam aos sinais e sintomas característicos no quadro do AI.
Algumas das hipóteses apresentadas fundamentam-se na observação de
pacientes não autistas que, apresentando certas condições clínicas, passam
a apresentar manifestações clínicas similares às do AI.
Damásio e Maurer (1978) propuseram um modelo neurológico para o quadro do
autismo e enfatizam o possível papel desempenhado pelo córtex
meso-límbico, área dos lobos frontal e temporal no seu aspecto mesial.
Esta área tem algumas particularidades filogenéticas e neuroquímicas que a
diferenciavam de suas vizinhas e inclui as seguintes estruturas: o giro
cíngulo, área entorrinal, área perrinial, giro parahipocampal e regiões
subicular e pré-ubicular da formação hipocampal.
Os autores propuseram que os prejuízos da motilidade, da comunicação, dos
comportamentos preposicionais, da atenção da percepção que são observados
no autismo poderiam ser explicados em termos da disfunção deste sistema e
estruturas relacionadas dos lobos frontais e gânglios da base.
Descreveram, em crianças autistas, uma tendência a manter determinada
postura pela presença de um aumento do tônus nas extremidades (distonia
das extremidades). Admitiram, também, que certos movimentos estereotipados
e repetitivos observados em autistas poderiam ser considerados como uma
forma de coréia, atetose ou ambos. Ao examinar os defeitos de linguagem
dos autistas, considera-nos mais próximos de defeitos tais como mutismo ou
inibição da fala que podem ser observados no curso do restabelecimento de
lesões frontais mesiais de ambos os hemisférios, particularmente daquelas
comprometendo a área motora suplementar e o giro cíngulo. Estes defeitos
bem distintos das síndromes afásicas, uma vez que as habilidades
lingüísticas básicas para repetir e compreender a linguagem estão
preservadas.
A equiparação do tipo de prejuízos da comunicação dos autistas com os
distúrbios da fala de pacientes com lesões frontais é bastante
controversa. Tal teoria não pode, entretanto, ser descartada, pois estudos
posteriores demonstram que disfunção do sistema mesolímbico e dos lobos
frontais poderiam, realmente, explicar algumas das anormalidades do
comportamento social e da cognição tal como podem ser observadas no AI
(Bishop 1993).
Um autor que tem se dedicado bastante ao estudo da nerofisiologia do AI é
Ornitz (1968, 1979, 1985). Segundo seus trabalhos, as hipóteses
neurofisiológicas básicas desta condição podem ser grupadas em duas
categorias: a que aceita influências que se originariam em estruturas
telencefálicas, particularmente no cortéx mesolímbico, incluindo-se o lobo
temporal e o neostriatum. Esta hipótese enfatiza os distúrbios da
linguagem e da comunicação presentes no AI e aceita uma desordem cognitiva
específica subjacente, de origem cortical. Argumentos a favor desta
hipótese provêm de estudos cognitivos e lingüísticos, resultados de EEGs,
achados radiológicos e de alguns tipos de potências evocados.
9 – DIAGNÓSTICO E INVESTIGAÇÃO CLÍNICA E LABORATORIAL
No que se refere à investigação clínica e laboratorial que deverá ser
desenvolvida quando frente a uma criança com quadro de AI, algumas
considerações devem ser feitas.
Apesar da necessidade dos exames serem realizados é preciso deixar
bastante claro, desde o início, que o diagnóstico de AI é, antes de mais
nada, um diagnóstico clínico que se baseia, primordialmente, no achado dos
distúrbios, mais ou menos característicos, nas áreas da relação
interpessoal, comunicação e comportamento. Os responsáveis pela criança
deverão entender que os exames solicitados não se destinam a decidir ou
comprovar o diagnóstico, mas sim a identificar várias condições clínicas
ou mesmo alterações, nos exames que podem estar presentes em um número
dado de crianças autistas. Outros exames poderão auxiliar na utilização de
alguma forma particular de tratamento, qual seja o uso de agentes
hiposserotoninérgicos em crianças com aumento de 5-HT(tratamento
discutível, porém preconizado por alguns autores) ou a utilização de
anticonvulsivantes em pacientes com quadro sugestivos de crises epiléticas
parciais complexas e um EEG mostrando alterações compatíveis com o
diagnósticos de epilepsia.
A importância da anamnese nos parece bastante evidente, uma vez que poderá
trazer dados que não apenas levantem a suspeita do AI, mas também
informações que nos permitam fazer a suspeita da presença de alguma outra
condição associada ou pré-existente.
O exame físico geral deverá ser particularmente cuidadoso podendo
evidenciar algumas das condições clínicas previamente citadas e que têm
alterações fenotípicas bastante característica tais como as encontradas na
esclerose tuberosa, síndrome do fra(x), síndrome de Cornélia de Lange,
hipomelanose de Ito, etc. O exame neurológico poderá ser normal ou
refletir alterações decorrentes de afecções primárias do sistema nervoso
que podem acompanhar quadros de AI.
Autistas de bom rendimento podem apresentar, ao exame neurológico,
dificuldades psicomotoras marcantes. As alterações da forma e do conteúdo
da fala são freqüentes e bastante óbvias. Poderemos observar, durante a
consulta, a presença de comportamento esterotipado e hiperatividade.
Deveremos observar como a criança estabelece contato com as pessoas e
objetivos e, particularmente o tipo de relação interpessoal estabelece com
seus pais.
Avaliação auditiva deverá ser realizada sempre que possível uma que
sabemos da possibilidade de coexistência do AI com deficiência auditiva. O
EEG, quando realizado, deverá ser feito com a criança em vigília, sono e
procedimentos de ativação. Testes para erros metabólicos inatos poderão
ser indicados. Estudo cromossômico com pesquisa de X-fragil deverá ser
realizado quando não houver uma outra “causa” para o quadro clínico.
10 – TRATAMENTO: ASPECTOS GERAIS
Inicialmente seria importante deixar que o Ai é uma condição crônica,
geralmente severa, que compromete de maneira significativa e definitiva as
áreas da interação interpessoal, comunicação e comportamento. Atualmente,
aceita-se que o AI tenha sempre uma base biológica, tendo perdido
importância as teorias que defendem uma gênese exclusivamente psicogênica
e/ou psicodinâmica. Sabemos que os sintomas do AI podem variar bastante
quanto à severidade: porém, mesmo naqueles casos comprometidos, não
conseguiremos a “cura”, mas sim, quando muito, a minimização do quadro
clínico. Não podemos permitir que pais sejam ludibriado com a
possibilidade de cura, uma vez que sabemos que os casos “curados”
descritos se referem a melhoras substanciais assinaladas ou então, a
quadros mal diagnosticados. Isto não significa que estes indivíduos não
devam receber o melhor tratamento disponível, mas é preciso deixar claro
que se pretende é fazer com que autista possa Ter seu desempenho levado
aos limites de suas potencialidades.
Uma vez feito o diagnóstico de AI, teremos que nos ocupar em identificar
eventuais prejuízos associados, pois sua identificação será imprescindível
para que o plano de tratamento seja abrangente e complexo. Os defeitos
associados nestas crianças impõe limitações adicionais aos pacientes.
Entre os defeitos associados nestas crianças impõem limitações adicionais
aos pacientes. Entre os defeitos associados mais freqüentes, poderíamos
citar o retardo mental, crises convulsivas, prejuízos da atenção
–concentração com hiperatividade e desordens psiquiátricas.
Estima-se que 60-70% das crianças com AI tenham retardo mental variando
entre leve e severo; 20-35% apresentam inteligência limítrofe normal (QI
entre 700-100) e menos de 5% tem QI superior a 100. Mesmo os assim
chamadas autistas de bom rendimento apresentam prejuízos importantes na
linguagem/comunicação e comportamento e comportamento.
Em crianças mais novas, uma associação bastante casual entre AI e
epilepsia refere-se à síndrome dos espasmos infantis com hipsarritmia.
Nestes casos com epelepsia, o seu tratamento deverá ser feito da mesma
forma que em indivíduos epiléticos não autistas.
Distúrbios do comportamento fazem parte integrante do quadro do AI.
Comportamentos repetitivos e estereotipados são comuns e interferem com as
atividades de vida diária destes indivíduos.
Após Ter sido realizada cuidadosa avaliação da criança, tem-se a
possibilidade de planejar o tratamento que a ela será oferecida. O
tratamento do AI deverá visar, como já deixamos claro, tornar o indivíduo
o mais independente possível em todas as áreas de atuação.
Algumas crianças poderão beneficiar-se de um tratamento medicamentoso.
Contudo, em nenhuma hipótese, esta forma de tratamento será a única e nem
mesmo a mais importante.
10.1 – FARMACOTERAPIA NO AUTISMO
O uso de agentes fármacos para modificar comportamentos para modificar
comportamentos infantis é tão antigo quanto a história da Medicina. No
caso específico do Autismo Infantil, deparamo-nos com uma etiologia
questionável e atualmente vista multifatorial. É preciso enfatizar que
muitos indivíduos autistas chegam a não responder a estes agentes
terapêuticos.
As drogas neurolépticas tranqüilizantes clorpromazida e tioridazina foram
as mais usadas na década de 60. Porém, o seu efeito sedativo tem agitado
mais os AI e tem diminuído a atenção, o que levou ao uso dos agentes menos
sedativos (trifluoperazina, aloperidol, fenfluramina, etc) que não tenham
tais efeitos indesejáveis. No entanto, a tioridazina ainda tem sido usada
exatamente por causa deste efeito sedativo em autistas que estejam
apresentando insônias com um dos sintomas alvo.
Atualmente o raciocínio dos psicofarmacologista se dirige cada vez mais
para o “local de ação predominante” do agente químico nível celular.
No caso do autismo, os neurotransmissores catecolamínicos (adrenalina,
nor-adrenalina e dopamina) e indolamina (serotonina) têm sido estudados em
relação às suas respostas a vários agentes psicofármacos.
Estudos internacionais têm relatado que entre um terço e 40% dos autistas
apresentam níveis elevados de serotonina: A fenfluramina, derivado
feniltilamínico, tem mostrado que diminui a serotonina cerebral e leva à
diminuição dos níveis de 5HIAA no líquido cefalorraquiano dos pacientes
que a tomam. Observou-se uma melhora nas atividades de vida diária,
comunicação e socialização.
Bernard Rimland, fundador da associação Americana e Autistas, vem
relatando o uso da vitamina B6 e magnésio há mais de duas décadas
(Rimland, 1987). O papel da vitamina B6 no sistema neurotransmissor é
conhecido, pois a pirodoxina (vitamina B6) é a co-enzima na etapa anterior
à formação das aminas no metabolismo da dopaminanoradrenalina e
5-hidroxitriptamina.
A vitamina B6 tem sido oferecida na dose 10-30mg/kg/dia, não excedendo
1g/dia.
A buspirona, agente inibidor dos neurônios serotoninérgicos, tem sido
usada em autistas para diminuir a hiperatividade e tem dado resultados
ainda inconsistentes.
O carbono de lítio tem sido utilizado em AI que apresenta co-morbilidade
de distúrbio afetivo, comportamento agressivo e auto-agressão.
Para hiperatividade, os agentes químicos mais usados têm sido o
haloperidol, a tioridazina e a clonidina. Não são recomendados aos agentes
essencialmente sedativos.
Os comportamentos depressivo, ansiosos, obsessivos-compulsivos têm sido
tratados como agentes de atuação na recaptação da serotonina. A
clorimipromina (10 a 75mg/dia), a fluoxetina (10a75mg/dia), a imipramina e
amitriptilina( 10 a 75 mg/dia ) têm sido usados com resultados ainda
equívocos.
A regra de ouro é de manter bem claro quais são os sintomas alvo e lembrar
que sempre ocorrerão efeitos colaterais. Portanto, a sugestão seria:
“PRIMA NON NOCERE”.
10.2 – TERAPIA COMPORTAMENTAL
O tratamento da AI, quadro sério e complexo, oferece um desafio muito
grande à comunidade dos últimos 30 anos uma variedade de tratamentos,
baseados, em orientações teóricas diversas e de diferentes níveis de
abrangência (medicamentosos, terapia psicanalítica, terapia
comportamental, terapia de orientação cognitiva, terapia de integração
sensorial, terapia de contenção) foi usada na tentativa de tirar a pessoa
com autismo de seu isolamento, lidar com suas dificuldades e as distorções
no desenvolvimento e suas habilidades cognitivas, de comunicação e
socialização.
A terapia comportamental tem sua raízes em estudos de aprendizagem,
baseados nos princípios da análise experimental do comportamento,
propostos por Skinner (1938, 1953, 1957, 1974). Estes princípios, que se
originaram a partir de pesquisas de laboratório, analisam e seu meio
ambiente, salientando o papel crítico de condições antecedentes e
conseqüentes ao comportamento para que haja aprendizagem.
As primeiras pesquisas comportamentais, visando compreender a criança com
autismo, hoje consideradas, foram as de Ferster (1961), feitas em
laboratório. A contribuição principal de Ferster foi de demonstrar
explícita e concretamente a aplicabilidade dos princípios de aprendizagem
ao estudo de crianças com distúrbios de desenvolvimento e que, através de
arranjos cuidadosos de certas conseqüências ambientais, o comportamento
destas crianças pode ser alterado, aumentando-se seus repertórios
comportamentais e diminuindo os comportamentos disruptivos.
As primeiras pesquisas de aplicação estudaram comportamentos isolados. À
medida que a terapia comportamental evoluiu, e com base já em um conjunto
de princípios procedimentos comprovados, gradativamente planos de
intervenção em escolas, instituições, residências terapêuticas,
tornaram-se mais abrangentes e inclusivos
O ensino de habilidades de comunicação tem merecido atenção especial, com
o uso de estratégias diversas, estimulando-se tanto comportamento verbal
oral como modos alternativos de comunicação, seja através de linguagem de
sinais, uso de símbolos, objetos, fotografias, etc.
Esses estudos , simultaneamente com a instalação, manutenção e
generalização de comportamentos funcionais, preocupando-se com a redução
ou eliminação de comportamentos que interferem com novas aprendizagens,
como birras, estereotipias, comportamentos heteroagressivos e
auto-lesivos:
Lovaas e Smith (1989) propõem uma teoria comportamental sobre crianças com
autismo apoiada em quatro princípios:
(1) que as leis de aprendizagem respondem adequadamente pelo comportamento
de crianças com autismo e provêm a base para o seu tratamento;
(2) que crianças autistas apresentam muitos déficts comportamentais
distintos, que podem melhor ser descritos como retardos de desenvolvimento
e não como um défict central. Consequentemente, comportamentos devem ser
ensinados um-a-um à criança com autismo;
(3) que crianças autistas aprendem, desde que colocadas em ambientes;
especiais;
(4) que o fracasso de crianças autistas em ambientes normais e seu sucesso
em ambientes especiais indica que seus problemas podem ser vistos como um
desajuste entre seu sistema nervoso e o ambiente, que pode ser resolvido
através da manipulação do ambiente.
11 – O AUTISMO NA ABORDAGEM PSICANALÍTICA: DIREÇÃO DO TRATAMENTO COM
CRIANÇAS AUTISTAS E PSICÓTICAS.
Localizar a criança na temporalidade de sua estruturação é condição
primordial de sua abordagem pela psicanálise.
Para abordar o real da clínica pelo único meio que permite, ou seja, o
simbólico, que o situa ao conferir-lhe estatuto de coisa, há que se
recuperar a incidência dos acidentes, que demarcam o ponto lógico das
contingências do processo de estruturação subjetiva na coincidência de
suas manifestações com a lógica da constituição do sujeito. Contemplam-se
, assim, condições necessárias, mas não suficientes para a leitura do
texto hieroglífico escrito pela criança compõem vários registros e emergem
como elementos distintos que se interpõem e entrecruzam-se na composição
do texto de sua realidade psíquica.
Ao escrever sobre a direção do tratamento, Jaccques Lacan (1958 e 1967)
diz que o que justifica o conceito de contratransferência é que os
analistas acreditam nos efeitos que a pessoa do analista surtia no
paciente. Fazer intervir seus sentimentos em sua ação, é dirigir o
paciente, em vez de dirigir o tratamento.
As posições de Lacan são de grande importância para a discussão da
interpretação na clínica das crianças que estão sob o efeito das graves
psicopatologias, Nestes casos, a criança não está em posição de operar o
registro simbólico, mesmo que a ele seja submetida. Em geral, apenas
presentificam-se com o que há de real no significante, ou seja, o
significante não está na função lingüística: a criança está aderida a
significantes que não circulam.
É Alfredo Jerusalinsky (1993a) que nos permite situar as condições de
estruturação diferenciadas que o autismo e a psicose de crianças impõe.
Essas graves patologias infantis mostram que o corpo pode denunciar o
impedimento da função, primordial do significante – a equivocidade e suas
conseqüências na subjetivação, em que uma enunciação não se destaca.
O objetivo da análise é permitir a criança separar-se do sintoma familiar
para construir seu próprio sinthome, que é parte indestrutível do gozo e é
o laço social.
A análise é a possibilidade de deixar a criança fazer sua neurose
tranqüila, saindo da posição infantil de falo materno. O analista deve
cuidar para que a criança possa entrar na latência, que é o tempo de
compreender a castração, respondendo á existência da falta de saber do
grande. Outro, para que, na adolescência, ela possa olhar por trás da
latência e estabelecer um saber sobre o gozo, construindo uma nova versão
de objeto a.
Quando estamos diante de uma criança que é sujeito da significância, o
analista pode se alojar no cavo do desejo e exercer propriamente a função
analítica. Mas este não é o caso da criança autista ou psicótica, em que
temos uma criança para a qual o sujeito não se destacou do real, e
mantém-se na posição de criança-objeto, criança-gozo. Nesse caso da
criança autista ou psicótica, o analista só se pode alojar no lugar do
Outro primordial.
Implica-se aí a questão de saber como o analista pode operar para que os
efeitos que obtém mantenham-se no eixo da ética psicalítica, ou seja, não
podemos deixar de nos perguntar pelo desejo que o analista faz operar, já
que o pivô da transferência é o desejo do analista.
Na condição de Outro primordial, o analista substitui a operação do
significante, para produzir o que teve lugar: corte, separação,
negativização, furo. Operação de subtração a partir do qual se engendra um
sujeito, ali onde faltava efeito-sujeito, que tem o alcance de uma defesa
contra o real.
Trata-se, portanto, no caso do autismo ou das psicoses, de uma psicanálise
invertida. Visa a uma travessia do simbólico e do imaginário em direção ao
real da pulsão para um levantamento, ao menos parcial, das defesas.
O que está em jogo na análise de uma criança não estruturada é constituir
uma defesa contra o real. Assim, a direção do tratamento de uma criança
autista comporta o paradoxo que diz do limite da psicanálise.
Mas talvez possamos dar um passo a mais ao considerar que é a relação com
o real que se mantém em jogo no desejo do analista, mesmo ao tratar um
autista. Isso implica atravessar, distinguindo, separando e substituindo o
continuun do fluxo da criança por meio do exercício da operação
significante, intervindo sobre o organismo, para ali criar uma borda do
real capaz de contorna-la.
A intervenção que a transferência permite, nas graves psicopatologias
infantis, exige uma suposição de sujeito, pelo analista, antes que ali
haja um. Esse desejo do analista, essa aposta do analista é imaginária;
apoia-se numa teoria, num percurso, numa leitura das manifestações da
criança que ele distingue e translitera, antes que a criança possa
fazê-lo. Portanto, o analista escreve a manifestação da criança como
articulação, suportando uma gramática em que a criança se atrele, até a
produção de uma frase, e de um dizer.
É com esse texto essa linguagem, que ele calcula a interpretação,
entendida como a extensão metonímica em que o analista implica a criança
numa rede discursiva.
A motricidade, em que o corpo da criança se engaja, veicula em signos o
que se inscreveu na sua experiência primeira com a alteridade. Assim, o
que caracteriza essa motricidade é uma linguagem privada. Por outro lado,
analista não pode ler o texto das manifestações da criança numa relação de
correspondência biunívoca com sua estrutura de decifrador. Entre a
manifestação da criança e as cifras do clínico não há comunalidade de
procedimentos de cifração: um texto não substituí a outro. Isso exige que
a operação analítica trate o deciframento contando o texto da criança. Mas
não só.
A interpretação não é uma tradução metafórica, mas uma extensão
metonímica. O que se faz operante insistência da equivocidade, implicada
no seu reconhecimento pelo analista.
O analista carrega a única transferência possível a um autista: a de
receber a demanda do outro como negativa direta, não como invertida. Ou
seja, o pior problema é sua negativa, é seu não-ser.
Qual é a operação analítica? A mesma que qualquer outro faria com a
transferência? Não. Trata-se de encarregar-se do que está em jogo nessa
transferência, por meio de um ato analítico: produzir a inversão que ele
não pode produzir. É a chave da abertura da porta, é a única porta da qual
podemos Ter alguma chave _ e essa chave, ainda temos que fabricá-la.
12 – CONCLUSÃO
O autista de hoje não é o mesmo que poderia ter surgido no mundo antigo,
porque esse nome moderno, criado por Kanner, recorta e cria um novo
discurso que o situa e lhe dá lugar no mundo contemporâneo. Cria, com o
poder de criação do significante, um novo autista. Que prolifera, vai à
mídia, aos filmes, que enternece. Significa algo para a sociedade hoje, e
é por ela significado a partir das modernizações sociais à sua disposição.
O autista não poderá deixar de sofrer os efeitos desse lugar moderno em
que está situado. Sofre os efeitos dessa significação social, carrega a
exclusão da linguagem, e da circulação social, submetido a técnicas de
condicionamento para permanecer aí, na borda, lugar em que ele, de forma
surpreendente, se equilibra.
13 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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26 – INTERNET-
http: //w.w.w.aparj.com/~autismo. htm.
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