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Marina S. Rodrigues Almeida
Psicóloga, Psicopedagoga e Pedagoga
CRP 06/41029-6
marina@iron.com.br
18/09/2002
A proposta que trazemos de inclusão baseia-se num modelo de prevenção,
inicia-se pelo conceito de preocupação materna primária, WINNICOTT(1993)
pediatra e psicanalista inglês, descreveu esta atitude como sendo as
primeiras providencias que a mãe inicia ao planejar a inclusão do projeto
bebê/filho e posteriormente todos os demais cuidados dispensados durante a
gravidez. Neste momento as fantasias podem ser elaboradas positivamente,
favorecendo a criação de um espaço interno imaginário (na mente materna
primeiramente) para depois aparecer um espaço externo real, aonde este ser
humano será incluso e aceito. Portanto antes que exista o bebê concreto
ele já está vivo na mente da mãe, vai ocupando e conquistando um lugar de
identidade. Neste espaço imaginário, a mãe pode odiar seu bebê antes mesmo
que ele a odeie, porque ao permitir a entrada do novo, do desconhecido do
diferente e talvez “deficiente” (quando há presença de sentimentos
persecutórios constantes), fere nosso narcisismo (nossa imagem de espelho
perfeita e ideal). Ao mesmo tempo que a mãe alimenta as fantasias do
igual, perfeito, feio, bonito aparece a ambivalência dos afetos: é a vez
da luta entre amor e ódio, bem e mal, perfeito e imperfeito, aceitar e
rejeitar, conhecer o desconhecido, medo do estranho, ou será familiar!
Este pressuposto teórico nos ajuda a compreender esta dinâmica relacional
humana entre a maternagem imaginária e maternagem ambiente que poderá
acolher ou excluir: dependendo da força dos afetos amorosos ou
destrutivos. Se o predomínio for por sentimentos perigosos e destrutivos,
a defesa será o afastamento, a rigidez, o impedimento, a distância do
outro, negação, não quero conhecer. Se forem predominados os sentimentos
amorosos, reparadores e construtivos haverá continência, flexibilidade,
compaixão, segurança, desejo de conhecimento.
Estes sentimentos podem ser vivenciados para a espera de um bebê ou no
modelo de inclusão ao qual propomos sendo do portador de necessidades
especiais. Consideramos que poderão estar neste inter-jogo emocional
outras demandas (individuais, culturais) não pretendemos aqui ponderar de
forma reducionista, apenas olhamos esta situação por um vértice.
Se as instituições quaisquer que sejam familiares, escolares, sociais ou
empresariais quiserem se constituir como espaços que acolham as diferenças
a meta não deve ser necessariamente enquadrar, mas sim ajudar o
“diferente” a encontrar um lugar social, uma identidade. Poderá auxiliá-lo
a encontrar respostas por diversas vias, através de outras formas de
conhecimento e possibilidades. Entra aqui as Teorias das Inteligências
Múltiplas, a flexibilidade, as competências e habilidades intelectuais
humanas.
O que chamamos de preocupação materna primária, representa uma metáfora
para a escola, para os professores e para os funcionários se prepararem
para receber o possível educando incluso.
Lembremos que o desafio psicanalítico foi, desde o início, propiciar a
escuta das diferenças e contribuir para que o sujeito possa encontrar seu
bem estar dentro delas.
Trabalhar com o portador de necessidades educacionais especiais exige a
disponibilidade (interna e externa – maternagem imaginária e maternagem
ambiente suficiente) da equipe administrativa escolar, disponibilidade do
educador, dos pais e do aluno.
O objetivo principal desta intervenção é seu caráter preventivo,
gradativo, promovendo o pensar sobre a Inclusão, sua representação
simbólica em nós seres humanos; através da sensibilização, conscientização
e informação sobre inclusão no meio escolar.
Consideramos o meio escolar como sendo TODOS os componentes da escola:
equipe administrativa (diretores, assistente de direção, coordenador,
orientador, pessoal da secretaria), professores, merendeiras, auxiliares,
serventes, porteiros e pais dos educando em classes especiais e inclusos.
Propomos como forma de intervenção :
Informar os educadores preparando-os para cumprir responsabilidades de
incluir educandos com necessidades educacionais especiais.
Sensibilizar o comprometimento dos membros escolares e familiares para
garantir que os educandos portadores de necessidades educacionais
especiais recebam maior apoio possível para se beneficiarem do ensino
escolar.
Desmistificar o paradigma da Inclusão do portador de necessidades
especiais.
Promover a parceria dos educadores tanto de classes especiais e classes
regulares.
Acolher os Pais que têm seus filhos matriculados em classes especiais ou
inclusos.
Atingir os seguintes aspectos:
Conceituar Inclusão e Integração.
Noções básicas da legislação vigente.
Utilização do Manual Informativo para Educadores e para Pais sobre
Inclusão e Educação Especial - criado para esta proposta.
Informar sobre as deficiências : Mental, Sensorial (auditiva e visual),
Física e Transtornos Invasivos do Desenvolvimento.
Esclarecer dúvidas no convívio com o portador de necessidades
educacionais especiais (Manual Como Ajudar Um Portador de Necessidades
Especiais - criado para esta proposta).
Esclarecer síndromes e deficiencias de interesse geral.
Discussão sobre valores e preconceitos.
Intervenções singulares da prática pedagógica para o atendimento
educacional dos portadores de necessidades educacionais especiais.
Consideramos que a educação regular sofre as mesmas conseqüências da
educação especial, vejamos: o aumento dos “educandos fracassados”, o
índice de educandos apresentando dificuldades de aprendizagem, educandos
na faixa etária entre 9 a 13 anos que não logram sucesso se quer para a
possibilidade de se alfabetizarem, são todos excluídos em algum nível.
Estes dados demonstram a ineficácia pedagógica, pouco acolhedora do nosso
sistema educacional. Denuncia a perversão da educação compartimentada,
massificada, desamparada, perdida, procurando se encontrar (não podemos
desconsiderar os inúmeros esforços e mudanças em nosso sistema
educacional), e concomitante aparece a injustiça social.
Não estamos destacando os culpados, procurando reducionismos ou
casualidades, mas sobremaneira reflexões dos acontecimentos multifatoriais
ao longo da nossa história educacional. Só assim compreenderemos os fatos
e promoveremos mudanças.
Precisamos aprender a pensar primeiro só depois tentar timidamente dar um
passo a frente. Algumas vezes precisamos dar dois passos para trás para
conseguirmos manter nossa caminhada rumo aos nossos ideais. Este é o
diferencial: saber qual é o rumo, meta, objetivo, do contrário saímos
dando “tiros na água”. Este jeito mencionado é frustrante, gera
insegurança, incapacidade e por conseqüência promove a falta de esperança
de que nada possa mudar.
A educação, precisa ser revista, pensada, norteada, porque hoje temos a
concepção extremamente abrangente de "necessidades educacionais especiais”
: implica que, potencialmente, todos nós possuímos ou poderemos possuir,
temporária ou permanentemente, algum tipo de "necessidades educacionais
especiais" durante nossas vidas! Portanto não há porque haver dois
sistemas paralelos de ensino, mas sim um sistema único, que seja capaz de
prover educação para todo educando.
Precisamos unificar o sistema educacional, por em prática nossos direitos,
deveres como cidadãos. Para tanto implica em rever questões muito sérias
que só serão resolvidas paulatinamente.
Destacamos algumas intervenções passíveis de mudanças:
Uma política adminstrativa humanística e não depositária, podemos
começar por nossa escola, não há necessidade de iniciarmos tudo numa macro
esfera de valores.
Organização dos espaços escolares: como números de alunos por sala de
aula, números de alunos inclusos por sala de aula;
Capacitação dos professores de forma contínua, sistemática;
Acessibilidade;
Terminalidade seguindo um enfoque de promover independência, autonomia,
subsistência suficiente para um futuro senil.
Parcerias com os sistemas de saúde, sociais e jurídicos, ONGs, Terceiro
Setor.
Nenhum começo é fácil, os esforços e investimentos só parecerão utópicos
se vistos de forma imediata.
Para transformamos qualquer coisa na vida, em destaque ao ser humano,
requer fundamentalmente do pensar sobre as ações afetivas e práticas, de
maneira preventiva, avaliando suas conseqüências, revendo acertos e erros;
é processo, é construção, é interrelação.
A inclusão não é uma ameaça, não é uma terminologia nova, não é fazer de
meu filho cobaia da inclusão, transformar o educador em especialista ou
generalista, nem a escola num depósito de seres humanos amontoados, nem
muito menos num arsenal de práticas mágicas-pedagógicas que venham atender
todas as singularidades.
Entendemos a inclusão como uma questão histórica, evolução da humanidade,
onde gente deverá ser atendida em suas necessidades como sendo da espécie
humana, não é poesia romântica, é fato possível, talvez para nossos
netinhos, bisnetos! Mas possível.
Cabe a cada um de nós ir encontrando sua “ponte” com um outro, o relevante
é a luta pela inclusão, porque é para toda a vida. Outros excluídos
aparecerão, não vamos buscar os resultados, mas as soluções para os
problemas, que talvez nunca tenham respostas.
Este é o mistério implacável da vida, conviver com o não saber, chamo isto
de capacidade para ser humilde frente as nossas limitações humanas!
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