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MARINA S. RODRIGUES
ALMEIDA
PSICÓLOGA, PEDAGOGA E PSICOPEDAGOGA
marina@iron.com.br
CRP 06/41029-6
Pais, educadores e demais profissionais estão se deparando, com um dilema:
“Como educar nossos filhos para uma sociedade futura ?”.
Nossa preocupação e angústia vêm da natureza de não conhecermos em
detalhes os aspectos fundamentais desta futura sociedade!
Se concordarmos que a função da Educação é a preparação das pessoas para o
seu futuro, neste momento ninguém pode saber com exatidão como será o
futuro, nem o futuro mais próximo.
Não sabemos, por exemplo, as conseqüências, das possibilidades da clonagem
humana ou dos resultados do Projeto Genoma. Essa incerteza pode nos deixar
paralisados, insatisfeitos com a maneira de realizar "uma educação",
precisamos ter coragem para desafiar os erros para encontrarmos novas
maneiras de “fazer” ou “refazer” a prática pedagógica.
Neste sentido, a Sociedade Contemporânea está passando por uma série de
modificações estruturais que nos obrigam a reavaliar aquilo que estamos
fazendo em Educação, e tentar alinhar este esforço à realidade que existe
fora da instituição acadêmica. Por exemplo, muitas carreiras estão sumindo
no cenário nacional e internacional, devido à informática e à
globalização; por outro lado, carreiras novas estão surgindo.
Como deverá ser esta escola e este educador nessas condições? Como é
preparar um educando num mundo de velocidade, de mudanças na sociedade,
para um mundo de valores e de atividades profissionais diferentes das
atuais?
Acredito que a meta principal, da Educação, da escola e do educador, tenha
que ser investida no preparo do futuro adulto para pensar sistematicamente
e ecologicamente. Exatamente o oposto da nossa Educação atual, que apesar
de suas modificações através dos Parâmetros Curriculares, ainda está sendo
aplicado na prática para formar os alunos baseando-se em fatos históricos
e científicos potencialmente úteis no futuro, mas aplicáveis apenas no
exame vestibular para entrada numa universidade.
A nova meta da Educação tem que ser como pensar e não o que se pensa. Os
principais problemas de nosso tempo não podem ser compreendidos
isoladamente, mas vistos de forma interconectada e interdependente. A
maneira de pensar deverá ser "holística" (vendo o mundo como um todo,
integrado) e "ecológica" (reconhecendo a fundamental interdependência de
todos os fenômenos naturais), tanto como indivíduos como sociedade, todos
nós estamos inseridos dentro de processo cíclico da natureza.
O holístico também é parcial, pois depende de quem está vendo, em que
momento, lugar, situação, de quem se trata, para que... Portanto nunca
teremos um controle do todo, mas podemos ter maior chance se nos
propusermos a considerar vértices e opiniões diferentes da nossa.
Uma visão holística da inclusão dos portadores de necessidades
educacionais especiais, significa ver a inclusão como um todo funcional,
compreendendo suas inter-relações entre as partes envolvidas.
Numa visão ecológica da inclusão, implicaria a percepção de como as
inclusões dos portadores de necessidades educacionais especiais serão
inseridas em seu ambiente natural e social: de que precisaremos para
executar este paradigma, quais as estratégias fundamentais, como a
inclusão das pessoas portadoras de necessidades especiais poderão afetar o
meio ambiente natural, nosso cotidiano e a comunidade que irá inseri-los?
Por exemplo à questão do transporte: estamos falando do quanto as pessoas
portadoras de necessidades educacionais especiais e a sociedade estão
dispostas a investir em locomoção que está relacionada a velocidade,
segurança, conforto, prestígio e seus efeitos de conseqüência no
meio-ambiente. Isto envolverá valores diferentes, dependendo da escolha do
transporte, por exemplo: entre carro adaptado, ônibus adaptado, cadeira de
rodas. O individuo poderá ser visto como um pobre coitado, alguém de bom
senso, respeitável, admirável, o rico que tenta esconder a deficiência, e
outras possibilidades.
Hoje dependendo da cultura, do local, do tipo de transporte, do tipo da
deficiência encontraremos valores diversos.
A metáfora central da ecologia, é a rede em oposição à hierarquia
(estrutura de poder); é provável que teremos uma mudança na organização
social, de hierarquias para redes, em vez de um paradigma baseado em
valores antropocêntricos (centrados no ser humano) surgirá um paradigma
baseado em valores ecocêntricos (centrados na Terra), reconhecendo o valor
inerente de vida não humana. Portanto os valores poderiam estar voltados
para o tipo de transporte escolhido pela pessoa portadora de necessidades
educacionais especiais: se for poluente, se usa material reciclável, se
beneficia a saúde da pessoa ou a torna sedentária e dependente, se ocupa
muito espaço, etc ...
A partir desses conceitos, precisaremos de um novo sistema de ética,
diferente do atual, e nossos filhos deverão ser preparados para sobreviver
no futuro entendendo os princípios básicos da ecologia: interdependência,
reciclagem, parcerias, flexibilidade, preservação, respeito, cultivo e
diversidade.
Neste momento a Escola, o educador e todos nós, precisaremos investir na
consciência do nosso meta-pensamento, isto é, saber como se resolve um
problema. Significa pensar em termos de conexões, relações, contexto,
interações entre os elementos de um todo; de ver as coisas em termos de
redes e comunidades. Como a cadeia alimentar, a cadeia de predadores que
inclui o homem como o único que mata sem ter fome, que destrói sem ter
motivos, apenas pela satisfação e onipotência de seu domínio sobre as
espécies “inferiores”.
Levar o educando a saber pensar sistematicamente envolve capacitá-lo a ver
"processos" em qualquer fenômeno, de ver mudanças (reais ou potenciais),
crescimento e desenvolvimento, de compreender coisas através do conceito
da gestalt (um todo é maior do que a soma das suas partes); de reconhecer
que as nossas percepções são condicionadas pelos nossos métodos de
questionamento e que a objetividade em ciência é muito mais uma meta do
que um fato.
Ver o mundo em termos de sistemas interconectados envolve conhecimento de
cibernética (padrões de controle e comando), e de como lidar com
complexidade e com estruturas dinâmicas.
As próprias escolas têm que ser convertidas em organizações de
auto-desempenho. A sobrevivência tanto nas organizações quanto de
indivíduos dependerá mais de sua capacidade de funcionar com
alto-desempenho do que de outros fatores, como monopólios, patentes,
territórios exclusivos, sigilo ou localização. E as escolas que não se
adaptarem á nova realidade serão colocadas à margem do processo. Todos os
especialistas em (construção de equipes) trabalham exclusivamente em nível
empresarial, enquanto as escolas acreditam que trabalho-em-grupo é uma
coisa natural, espontânea, sendo que isto não é um fato, há necessidade do
exercício e propostas para se desenvolverem de forma grupal, solidária, do
contrário nada se modificará.
A capacitação dos professores daqui em diante precisará incluir técnicas
que incentivem os alunos para cooperação, sendo o "trabalho em grupo" uma
estratégia na sala de aula, o papel do professor como mediador dos alunos.
O próprio educador precisa se tornar um agente de mudança trabalhando em
grupo com seus colegas, com outras pessoas da escola.
As novas tecnologias de comunicação nos permitem individualizar a
aprendizagem, deixando cada aluno navegar sobre vastos territórios de
informação virtual, imagética e sonora, destacando os assuntos que agradam
e isolando os que desagradam, aprofundando-se nas categorias de informação
que se afinam com o seu "saber" individual de aprendizagem. Em
conseqüência de estarmos vivendo na Era da Informação, um novo espaço de
atuação profissional está sendo gerado, colocando de maneira paralela a
Comunicação e a Educação.
Em tempos de reflexão e mudança de paradigmas, o Sistema Educacional
também está sofrendo suas pressões. Começando através das novas correntes
de aprendizagem, “o indivíduo constrói seu conhecimento em conjunto com o
movimento sócio-cultural” (FREIRE, 1978), a relação professor/aluno,
“Geração Net” (SOARES, 1998), e chegando a mudança da identidade do
educador do século XXI, o “Educomunicador” (SOARES, 2000) , mediador das
tecnologias de comunicação, desenvolvidas em conjunto com a teoria das
Inteligências Múltiplas de H. Gardner, podem servir como um excelente
espectro de tonalidades das disciplinas.
Esta proposta faz com que a escola, possa transforma a Mídia controladora
em divulgadora, promotora de eventos, noticias de crescimento, dissolvendo
a veiculação da desgraça, violência, sensacionalismo. A Escola precisa ser
sensacional, espetacular. Os espetáculos da escola são preenchidos por
desgraças, submissões a gangues de alunos, morte de educadores, evasão
escolar, pichamento, repetência, superlotação de alunos por sala de aula.
A violência escolar pode ser entendida como uma denuncia a própria
violência perversa do sistema educacional em nosso país. O abandono,
desamparo, a falta de possibilidades em atender demandas de crianças e
jovens em suas necessidades do cotidiano. A família não é a mesma, sua
estrutura mudou. Todos as patologias, e os desconfortos familiares chegam
a escola, o professor, a equipe escolar sentem-se impotentes para lidarem
com esta dinâmica afetiva, empobrecida que clama por saídas.
A sociedade atual exige pessoas detentoras de tipos diferentes de
capacitação, com talentos variados, sobrepostos e mutáveis. Como um prisma
que distribui a luz num campo visual, a teoria das múltiplas inteligências
usada no planejamento educacional, cria condições para a produção de
pessoas diferentes. Ela nos mostra como levar o aluno do material
acadêmico, que serve como suporte até chegar às metas finais, permitindo
que cada um adquira, do seu próprio jeito, através do seu próprio estilo
individual de aprendizagem.
Sabemos que no futuro muitas pessoas terão uma jornada de trabalho mais
curta do que a atual, e sobrará mais tempo para o lazer.
Um educando exposto na escola à literatura, às artes, à história e a
geografia e às ciências, poderá se transformar no futuro um cidadão, que
terá condições de acrescentar mais a sua vida em termos de prazer,
crescimento emocional e sabedoria.
Sabemos que o novo paradigma está sendo proposto pela Biologia – a
Genética (o universo visto como um e muitos organismos, entes
auto-reprodutivos, se auto-organizados, levando a examinar as coisas em
termos de seus relacionamentos externos, os seus contextos, a sua
conectividade, o seu crescimento e evolução).
Estas idéias complementam duas outras correntes intelectuais que têm
implicações fortes para mudanças em Educação: a inteligência artificial -
cibernética (utilizada para examinar os processos cognitivos no ser humano
e suas possíveis aplicações na construção de máquinas "inteligentes") e a
vida artificial (estudo de sistemas criados artificialmente por robôs que
exploram e constroem, vírus de software que matam outros vírus). Esse
segmento inclui pelo menos algumas das características, ou propriedades,
de "vida humana real" (por exemplo, crescimento, reprodução,
auto-manutenção, auto-regulamentação, exigência de nutrientes e energia),
pressupostos que levam a pensar sobre a evolução e o comportamento humano.
A escola da atualidade necessita ser mais flexível, ser inteira e
representar a vida. Nossas escolas baseiam-se inteiramente em torno da
noção de disciplina e comportamento. O educador das primeiras às quartas
séries deixa de ser o “professor” para ser tornar o “professor de algo”, o
professor das disciplinas das quintas às oitavas séries. Professor de
geografia, professor de matemática, quando em última análise, deveria ser
professor de gente, não de matérias. A escola corre atrás de resultados
quantitativos, e deixa de ser de qualidade perdendo a oportunidade de
entender como se chega aos resultados. Alunos mal comportados são
excluídos do sistema, não há lugar para sofrimento humano, pensar a dor,
afeto, é algo muito complexo para nossa escola abarrotada de alunos nas
classes. Como ouví-los?, como criar espaços suficientemente humanos de
intervenção ? Mas temos o jargão democrático para aferir “toda criança na
escola”, mas ninguém pergunta: como?, de que maneira está na escola?, qual
seu efetivo aproveitamento?, instalação?, qualidade?
Podemos criar várias disciplinas falando de cidadania, honestidade, etc...
Os valores têm de ser vividos, vivenciados; a crise na educação não é
outra coisa senão a perda de sentido, nos remete a idéia da educação ter
um sentido coletivo.
Falamos de ética, valores, inteligências, em nossas escolas, mas será que
a escola vive isso, afinal o que os alunos vivem na escola, salvo as
exceções?
Não proponho respostas mas desenvolver nossa capacidade de pensar o
cotidiano, talvez encontraremos diversas soluções paulatinas.
Reconhecer que podemos promover uma nova forma de aprendizagem, muitas
vezes longe do que pretendíamos como objetivo principal, acredito que aí
esteja a arte em ser educadora.
Ver o que não está no aparente, no pedagógico, no conteúdo programado, no
concreto, mas considerar o crescimento humano que a pessoa adquiriu
durante aquela experiência. Como educadora considero isso como relevante
porque ficará por toda vida!
“Tudo isso é aprender. E aprender é sempre adquirir uma força para outras
vitórias, na sucessão interminável da vida”. (Cecília Meireles).
BIBLIOGRAFIA:
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Ola3, setem/2001
BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. São Paulo: Elfos, 1995
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Ed. Zahar, 1994
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________________Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1981
FREUD,S. Além do Principio do Prazer, 1920. Rio de Janeiro: Ed.
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HALL, Stuart. Identidade e Cultura na Pós-modernidade. Rio de Janeiro:
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LASCH, Christopher. A cultura do Narcisismo. Rio de Janeiro: Ed. Imago,
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LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1998
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QUADROS, Paulo da Silva. Ciberespaço e Violência Simbólica, Revista
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SOARES, Ismar Oliveira. Educomunicação: Um campo de mediações. Revista
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____________________Sociedade de informação ou da comunicação. São Paulo:
Cidade Nova, 1997.
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