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Max Miller
(por sua mãe Maria Miller)
 
Gostaria de compartilhar com vocês algumas experiências que eu tive com meu filho Max de 16 anos. Portador da Síndrome de Asperger.

Max é nosso segundo filho. Nossa filha mais velha tem 21 anos e a caçula 14. Menciono as meninas pois não posso imaginar sucesso nessa batalha sem a ajuda delas.

Max nasceu de cesariana na Clinica São José no Rio de Janeiro, no dia 7 de fevereiro de 1987. Max foi um filho muito desejado e muito planejado. Mesmo antes de eu engravidar já tínhamos escolhido seu nome.  Desde bebezinho eu notava que Max era diferente.  Ele olhava para a gente com aqueles lindos olhos azuis como se estivesse olhando através da gente. Max estava sempre distraído e alheio ao que se passava a sua volta.  Engatinhou cedo demais (aos 5 meses) e ele engatinhava para trás.  Andou aos nove meses (!). O que as outras pessoas achavam precoce eu achava muito estranho.  O mais estranho é que quando ele andava e se machucava, coisa muito comum desde que começou a engatinhar, Max se machucava o tempo todo. Só que ele não chorava.  Era como se ele estivesse anestesiado. Era como se ele não tivesse consciência do próprio corpo.
Resumindo: ele não sentia dor.

Uma das coisas mais interessantes era o fascínio que ele tinha por jornais, livros e revistas.  Me lembro como se fosse ontem, Max engatinhando, pegar o jornal,por debaixo do braço e ir para seu quarto para "ler". Tudo isso engatinhando.  Detalhe: ele fazia questão de fechar a porta para não ser observado nem importunado. Muito estranho esse comportamento para um bebê.

Ele quase não se comunicava conosco apesar de nossos estímulos.  O único meio de prender a atenção de Max era quando ele se interessava pelas letras do alfabeto. Ele perguntava incessantemente. Que letra é essa? Que letra é aquela? De repente ele estava lendo tudo!  Max ainda não tinha completado dois anos de idade e conseguia ler tudo que via.  Era quase uma obsessão a leitura para ele. 

Toda vez que o levava ao pediatra eu comentava essas particularidades mais ninguém achava que isso era motivo de preocupação e sim de orgulho pois nós tínhamos um filho muito inteligente...

Em 1989 nasceu nossa terceira filha e pude logo ver a grande diferença de comportamento e de desenvolvimento da neném e do Max que já tinha feito 2 aninhos.

Em 1990 nos mudamos para a Suíça. No fundo fui para esse país mais desenvolvido com a esperança de mais apoio e orientação quanto ao Max e suas extravagancias.

Acho que a primeira coisa que compramos para ele quando chegamos na Suiça foi um livro sobre animais.  Ele queria saber mais e mais e mais.
Compramos para ele uma enciclopédia de 2 volumes e mais de 500 páginas sobre animais.

Ele conseguiu decorar a enciclopédia em menos de um mês.
Isso tudo em alemão sendo que os nomes dos animais em latim ele também fazia questão de saber.

Max sempre teve obsessões.  Quando ele cismou que queria aprender todas as capitais do mundo, ele aprendeu todas as capitais do planeta.  Incluindo ilhotas no sul do oceano pacífico, todas as províncias da África, Ásia e Oceania. Isso tudo pode parecer fascinante mas quando se torna uma obsseção e a criança não fala de outra coisa é de enlouquecer...Capital de Burquina Fasso? Ouagadougou.

Ter um autista em casa chega a ser engraçado.  Com a queda dos países comunistas, Max não conseguia achar nenhum atlas atualizado. Sua solução foi fazer seu próprio atlas. Só que ele tinha três anos de idade.

Na escola seu jeito diferente foi imediatamente percebido pelos coleguinhas.  No início ele foi meio excluido. Depois de pouco tempo ele virou o mascote da sala.
Para sua sorte Max é uma criança que emana bondade por todos os poros.

Não posso deixar de comentar um fato muito interessante.  Na Suíça dávamos muitos passeios a pé.  Uma vez passeando pela floresta Max esticou o braço e uma borboleta pousou na ponta do dedinho dele. Achamos isso muito lindo é claro.
Só que a partir desse dia começamos a notar que os animais perseguiam o Max.
Quando íamos fazer algum lanche ao ar livre, mesmo em restaurantes os passarinhos entravam no prato do Max para "dividir " a comida com ele enquanto nenhum pássaro chegava perto da gente.

Uma das coisas mais interessantes que me lembro foi num fim de semana que fomos a um "mini zoo".  Um lugarzinho muito lindo com vários cercados com bichinhos (coelhos, porquinhos, bichinhos típicos dos Alpes suíços).  O interessante era que os bichinhos muito ariscos fugiam quando qualquer criança ameaçava se aproximar do cercado (por sinal bem grande) só que quando Max chegou a bicharada veio toda ao encontro dele.  As crianças e os pais das outras crianças não conseguiam entender porque que os bichinhos estavam literalmente perseguindo aquele menininho. Só eu, meu marido e as meninas é que entendíamos que se passava.  Ou pelo menos aceitávamos o que se passava.

Estou narrando o lado light e bonito de se ter um filho como o Max.  Ele não tinha três anos e já sabia ler e escrever.  Tinha uma inteligência e uma memória muito acima da média, mas eu sabia que havia algo errado.  Nós pedimos orientação a um psicólogo e logo depois Max começou a ser tratado na Clinica Psiquiátrica Infantil de Luzern.

Para resumir: Max foi diagnosticado como portador de autismo "leve".  Naquela época a Síndrome de Asperger não era tão conhecida.   Max se submeteu a um tratamento psicológico onde ele aprendeu a se reconhecer como indivíduo.
Foi uma grande ajuda para todos nós.

Voltamos para o Brasil em 1997.
Max cursa a primeira série do segundo grau.  É uma pessoa queridíssima por todos na escola e é um dos primeiros alunos de toda a escola.

Ainda tem muitas dificuldades típicas da Síndrome que é portador e que graças a internet tivemos conhecimento de sua existencia.  Acho que entender o que está acontecendo já é meio caminho andado.  Mostramos ao Max as reportagens sobre a Síndrome de Asperger.
Ele leu, fez os testes. Quase que atingiu a pontuação máxima.
Mais ele não deu muita bola.

Acho que o mais importante para ele é estudar, tirar boas notas, jogar video game (mais uma obsessão, só que controlada),ir a academia...

O que a irmã mais velha as vezes brinca com ele é sobre a falta de interesse dele por meninas. Ele ainda não se interessa pelo sexo oposto.  Só que ele é mais que assediado, pois ele se tornou um rapaz muito bonito.  Gosta de malhar mais não é nem um pouco vaidoso.  Mais acho que mais cedo ou mais tarde ele vai chegar lá .
É só uma questão de tempo e paciência.

Quando olho para trás e vejo aquele Max totalmente alheio a tudo e a todos que o cercavam e vejo o Max hoje um garoto engraçado, muito sério, mais as vezes até com senso de humor! Coisa muito rara na Síndrome de Asperger.  Acho que fizemos um bom trabalho.  Posso dizer que foi uma experiência única e fascinante.

O convívio com uma criança tão especial é preocupante quando não sabemos do que se trata. Uma vez que a gente aceita essas condições tudo se torna normal.
As vezes pode parecer para os pais que a criança não quer a companhia da gente, não precisa da gente ,mais o autista precisa de nós. de repente até mais do que as crianças não autistas.  Precisa de nós por muito mais tempo.

Gostaria de me comunicar e trocar experiências com outros pais.

Maria Miller


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Atualizado em: July, 2006