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Thiago Augusto
(por sua mãe
Elzany Leal) |
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A História de
Thiago Augusto
Queridos amigos, há algum tempo estou para enviar o meu depoimento de vida
com meu filho Thiago Augusto, mas estive de licença me recuperando de uma
cirurgia e não houve tempo de enviar o texto antes do Natal.
Bem, Thiago Augusto hoje com 19 anos, foi gerado num momento de
fragilidade que toda relação (quase todas), conjugal costuma passar. Eu e
o pai dele estávamos completando sete anos de uma convivência que parecia
estável e equilibrada. Não havia dinheiro, mas diálogo, companheirismo e
muita cumplicidade. Éramos felizes com nosso filhote, Plácido Bernardes,
hoje com 24 anos e na época com apenas 04 aninhos.
A tabela havia falhado, e eu, concebido o Thiago o que me trouxe alegria
mas não ao seu pai, que para minha surpresa e espanto, sugeriu o aborto.
Eu jamais faria isso, e já amava aquele ser que carregava comigo. Naquele
momento estava sendo selado o destino de nosso casamento, pois a partir
daí nada seria como era antes.
Sob protestos Thiago se desenvolvia normalmente, mas emocionalmente estava
sendo muito difícil para mim, pois seu pai tornou-se frio e indiferente,
mantendo uma relação extraconjugal com pessoa de seu círculo de amizades
que freqüentava nossa casa. Não dividi isto com ninguém, pois queria tomar
a decisão de perdoar ou romper com tudo, sem conselhos, julgamentos ou
interferências alheias. Assim, o grito sufocado da dor da traição, da
decepção e do desamor foi dividido com o meu único cúmplice, tão inocente,
meu filho Thiago.
O tempo passou e meu raiozinho de sol nasceu sob parto cesárea, à termo,
com três quilos e meio, 48 cm, saudável, perfeito, decidi então cortar as
trompas a contra gosto, mas assim mantendo o casamento não haveria mais a
preocupação de ter outro filho rejeitado pelo pai.
Thiago era um bebê maravilhoso, saudável, risonho, não dava trabalho, só
alegria cuidar dele. Já estava com 01 ano e oito meses, falava quase tudo,
era independente, comia sozinho e de tudo, andava, e raramente usava
fraldas para dormir.
Um dia, ao voltar do trabalho, fui cuidar dele como de rotina, e no banho
descobri em sua virilha um gânglio... Meu coração ficou apertado apesar de
saber que ele não tinha febre nem dor e estava urinando normalmente.
Levei-o ao Hospital São Vicente de Paulo onde eu trabalhava já havia uns
cinco anos. O diagnóstico ; infecção urinária e o tratamento ; 10
aplicações de Briclin, cuja bula informava risco de lesão auditiva. Após
consultar urologistas e nefrologistas experientes, não tive outra saída a
não ser aceitar e fazer a medicação já que ele corria o risco de ficar um
adulto dependente de hemodiálise, com uma lesão nos rins.
Durante o tratamento, notei que o Thiago começou a se isolar, se fechar,
já não ria, não brincava, não pedia para ir para rua nem fazia festa
quando eu retornava do trabalho. Num período curto, foi deixando de
atender aos estímulos, recusava-se a comer com as próprias mãos, a ir ao
banheiro, passando a fazer suas necessidades na roupa sem se importar em
ser trocado. Passou a não dormir, nem de dia, nem de noite, seu rostinho
triste marcado pelas olheiras, seu olhar sem brilho e nele uma profunda
tristeza, parecia que haviam lhe tirado a alma e a mim a alegria de viver.
Não preciso dizer que o mundo desabou em minha cabeça, mas mesmo assim
tive forças para enfrentar e fé para aceitar. Entendi que Deus estava me
dando uma missão e eu não podia decepcioná-lo. Como estava me sentindo
muito só nessa luta, arrumei as malas de meu marido que mesmo após a nossa
conversa, as suas juras de amor eterno e o meu perdão, manteve-se na mesma
indiferença e o que é pior, passou a se embriagar, o que eu não podia
admitir que meus filhos presenciassem, assim nos separamos no auge da
transformação do Thiago.
Pedi transferência para o turno da noite, trabalhando 12 x 36, noite sim,
noite não. Ficava com Thiago durante o dia e com muito esforço e
persistência consegui que ele reaprendesse a comer , ir ao banheiro e
brincar com outras coisas. Mas nesse período ele passou a se agredir
quando era contrariado ou quando tentava encaixar um jogo e não conseguia,
batia com a cabeça na parede e gritava, gritava muito, e seus gritos me
doíam, doíam muito.
Do pediatra para o otorrino, do otorrino para o neurologista, do
neurologista para o psicólogo, assim Thiago completou 04 anos sem nenhum
diagnóstico. Desejei muito que fosse surdo, pois assim teria como tratá-lo
e onde educá-lo, mas surdo ele não era. Podia passar uma banda de música,
não atraia sua atenção, porém, se tocasse alguma música do Roberto Carlos,
ou anúncio da Faber Castell com a música Aquarela de Toquinho e Vinicius,
ele corria e ficava na frente da televisão se balançando como se dançasse
e seus olhinhos marejavam fazendo doer a minha alma.
Um dia levei-o ate a Escola Helena Antipoff cheia de esperança. Após
rápida anamnese, a pessoa que me atendeu que se dizia assistente Social,
não teve a menor cerimônia e nenhuma sensibilidade, e sem rodeios disse:
"a senhora tem mais um filho para cuidar, a única solução para o Thiago é
interná-lo antes que ele acabe com a senhora." Pasmem, mas foram
essas as palavras de uma pessoa que estava ali para ajudar. Não tive
reação, agradeci e dei as costas para aquele lugar para nunca mais voltar.
Se ele tivesse sido matriculado, até hoje teria assistência, pois soube há
pouco, na Secretaria de Educação, que eles tem um Centro com oficinas e
todo o apoio para jovens e adultos que tenham sido inscritos ainda
crianças.
Nessa época, conheci o meu atual marido com quem convivo há quinze anos.
Eu rejeitava qualquer relacionamento já que eu entendia que a dor era só
minha e não devia ser dividida, mas estava enganada, formar uma nova
família só veio a acrescentar na vida do Thiago que adotou o Bira como seu
pai, de cara. O Bira tratava-o com naturalidade, ensinava-o dava-lhe
carinho mas dava-lhe limites também, assim Thiago escolheu a ele para
seguir e obedecer. Aos poucos foi passando a participar mais das nossas
atividades, e passamos a fazer com ele a terapia do abraço: abraçávamos
ele e deixávamos que ele esperneasse, gritasse até cansar mas não o
soltávamos, fazíamos isso todos os dias, hoje ele é tão carinhoso que as
vezes precisamos pedir para parar.
Nessa época, um neurologista, Dr. Rafael Iorio, levantou a hipótese de uma
encefalite (inflamação da membrana que envolve o cérebro) causada pela
febre que ele não exteriorizou quando teve a infecção, e o lado afetado
seria o da fala. Faz sentido, mas até hoje não tivemos essa confirmação,
apesar de todos os exames feitos, inclusive tomografia computadorizada.
Foram tentadas várias medicações como Haldol, Tegretol, Ritalina, todos
tinham efeito contrário. Deixavam-no ainda mais agitado, só o Dogmatil
surtiu algum efeito e hoje o Neuleptil um neuroléptico que age no
comportamento tem sido o nosso bálsamo.
Após várias tentativas em escolas particulares que infelizmente não
contribuíram em nada, surgiu o NAICAP (Núcleo de Assistência a
Criança Autista e Psicótica) um espaço formado por excelentes
profissionais dentro do Instituto Phillipe Pinel onde Thiago esteve
até os 13 anos idade limite de atendimento. Em seguida mudei-me para
Niterói e logo inscrevi o Thiago na Pestalozzi onde estava sendo
implantado o mesmo sistema do Naicap pela psicóloga Vera Chiapeta,
porém até hoje o projeto infanto juvenil não teve inicio, e nas outras
modalidades, espero a vaga até hoje (05 anos).
Há um ano, quando estava de mudança para Maricá, estive no Instituto
Veras, e me entusiasmei com a proposta de tratamento do Instituto, devo
dizer que cheguei a receber um ótimo abatimento na mensalidade, mas
infelizmente ficou inviável, pois a distância é grande de Maricá a
Botafogo no Rio, todos os dias de 08 as 13h, mas é interessante, quem
quiser saber sobre o Instituto basta acessar o site.
Hoje, Thiago Augusto está com 19 anos, um lindo rapaz que ao sair na rua é
paquerado e sabe admirar as meninas que passam ou quando vai a alguma
festa, está fazendo fono, terapia ocupacional, e freqüenta o espaço
pedagógico com uma pequena turma que a CRER oferece.Tem sido importante
para ele, mas não é tudo, as vezes ele não quer ir, eu não forço porque
aprendi que ele é como é, com suas manias, seus limites, suas sucatas,
(coleciona tudo, tampinhas, embalagens etc ) respeito seus sentimentos e
sua vontade, porque descobri que o importante é que ele seja feliz.
E ele é feliz conosco, ao nosso lado, andando de carro, (adora!)vendo
televisão, escutando música, ajudando na cozinha, pois adora nos ver
cozinhar e preparar seus pratos favoritos (adora um churrasco e pratos
sofisticados). Alimenta-se muito bem, come de tudo, legumes e verduras,
toma banho, escova os dentes, veste-se sozinho e é muito vaidoso. Fala
apenas Pai, pai Bir e mãe, e me enche de alegria quando fala minha mamãe.
É pouco, mas para nós já vale muito, muito mesmo.
Estamos numa expectativa muito grande nesse inicio de ano, compramos nossa
casa (financiada), é um lugar lindo, rodeado de montanhas e cheio de
pássaros, estamos comprando um fusquinha para passear com Thiago
enquanto não podemos ter outro automóvel, encontramos uma ONG chamada
NAIR em Maricá onde pretendemos colocá-lo pois aceitam jovens da sua
idade, até o transporte escolar já conseguimos, assim meu marido poder á
se organizar e retomar sua vida profissional, já que está há dois anos em
casa tomando conta do Thiago por não ter onde deixá-lo.
Portanto, só temos a agradecer a Deus por tudo , inclusive por essa
oportunidade maravilhosa que esse site nos dá, me coloco a disposição para
o que for necessário que venha a acrescentar na luta de um lugar ao sol
para nossos jovens e crianças especiais.
Aproveito para deixar uma mensagem para todos, todos que por conviverem
com seres especiais são também especiais.
Não desistam nunca e não esperem milagres apesar deles existirem. O
grande milagre é você e sua família aceitarem de coração o seu ser
especial, amá-lo muito e mostrar de todas as maneiras e em todos os seus
gestos, esse amor, respeitando seus limites e também dando limites, correr
atras de seus direitos sem medo de se mostrar, derrubando preconceitos e
ajudando outros iguais a ele a se sentirem integrados e amados.
Que esse Ano que se inicia seja Especial, tão Especial como Eles são, e
nós todos possamos unir nossas forças na conquista de uma vida melhor para
todos eles.
FELIZ ANO NOVO E QUE DEUS ABENÇOE A TODOS!!!
Elzany Leal
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