O amor que é difícil,
por José Roberto Alcuri Júnior
A frase acima não é minha. É do detetive Ellery Queen, pseudônimo dos
primos
Frederic Dannay e Manfred B. Lee, autores de vários romances policiais de
grande sucesso. Não me recordo do título do livro, mas foi dita por um
personagem ao detetive para explicar porque toda uma comunidade, na qual
todos tinham papéis bem definidos, amava, respeitava e colaborava com um
outro personagem, portador de grave deficiência física e mental.
Guilherme, meu filho, tem 06 anos e é portador da síndrome de Asperger.
Até
os 02 anos de idade, tanto eu como minha esposa, Simone, havíamos notado
que
ele apresentava alguns comportamentos atípicos, como a fixação por
movimento
giratório (ventiladores), mas não imaginávamos que tais atitudes tinham
qualquer relação com Asperger, até porque desconhecíamos completamente
essa
forma de autismo.
Ao ir para o colégio, em fevereiro de 1999, seu comportamento inicial não
destoou dos demais alunos. No entanto, com o passar do tempo, sua
professora
e a orientadora educacional perceberam que a conduta do Guilherme, em
algumas atividades, era diferente, ou mesmo indiferente, ao contrário das
demais crianças. Além disso, era fascinado pelo ventilador de teto
existente
na sala de aula.
Quando a orientadora pediu uma avaliação psicológica e sugeriu que o
comportamento atípico do Guilherme poderia ter relação com autismo, tive
um
choque. Primeiro, porque minha filha Gabriela, que tem 10 anos e também
estudou no colégio, nunca teve qualquer problema de comportamento ou de
aprendizagem. Segundo, porque eu não havia feito nada de errado.
Aliás, não foi bem assim. Eu ficava tentando lembrar qualquer fato ou
situação, desde a gravidez, que pudesse justificar o problema do Gui, na
esperança de que, encontrando a causa, também encontraria a solução.
Ao fazer a avaliação com a psicóloga recomendada pelo colégio, ela
explicou
que não era possível fechar um diagnóstico completo, em função da pouca
idade do Gui, mas que, muito possivelmente, era Asperger, uma forma de
autismo mais branda.
Desde então o Guilherme tem um acompanhamento especial, dentro e fora da
escola. Graças ao amor e a dedicação, principalmente da Simone e da Gabi,
mas também de sua psicóloga, dos professores, direção e funcionários do
colégio onde ele estuda, de vários parentes e amigos, o Gui, a cada dia,
tem
melhorado seu comportamento, tornando-se mais comunicativo, mais
independente e, tenho certeza, mais feliz.
Várias angústias que eu tinha estão sendo superadas. O Gui já lê e escreve
praticamente todas as palavras. Já conhece alguns conceitos matemáticos
básicos. Sua memória é fantástica, capaz de lembrar músicas inteiras. Já
mantém um diálogo mínimo, capaz, por exemplo, de expressar suas sensações
(dor, fome, frio, etc.). Já vê alguns desenhos animados e joga videogame
melhor que a mãe. Já anda de bicicleta sem rodinhas. Acorda a noite para
ir
ao banheiro e escova os dentes sozinho. Ao se levantar pela manhã, vem ao
meu quarto e diz com o sorriso mais lindo do mundo: "Bom dia, papai!".
Ele possui grande dificuldade na interpretação de coisas abstratas, o que
é
uma característica dos portadores de Asperger. Seu relacionamento com os
outros colegas não é dos mais tranqüilos. Suas reações, quando
contrariado,
chegam a ser extremas e, algumas raras vezes, até perigosas para ele
mesmo.
Mas para tudo isso há um tempo. O tempo do Guilherme.
Eu sou católico e acredito em Deus. Acredito também que Asperger é uma
daquelas pequeninas coisas que Ele coloca em nossa vida não para nós, mas
para mostrar aos outros o amor que é difícil. Para mim, amar meus filhos,
do
jeito que eles são, é muito fácil.
JOSÉ ROBERTO ALCURI JÚNIOR, em 26 de setembro de 2002.
Obs.: Omiti propositadamente os nomes do colégio e de diversas pessoas, já
que não tinha autorização para divulgá-los. Se vocês quiserem maiores
informações, envie E-mail para
José Roberto Alcuri Júnior
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