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Dr. Raimundo Facion (Parte 2)
Comunidade Terapêutica Interdisciplinar - COTEI
 

Noticias sobre a COTEI do Sr. José Raimundo Facion
Fonte: Gazeta de São João Del Rey

JORNAL GAZETA DE SÃO JOÃO DEL REI - MG
DADS dá inicio ao processo COTEI

A Diretoria de Ações Descentralizadas de Saúde de São João Del Rei (Dads) já deu início ao processo que vai apurar denúncias de irregularidades e maus tratos a pacientes na Comunidade Terapêutica Interdisciplinar (Cotei). Durante a semana, a Gazeta atendeu a manifestações tanto de pais favoráveis à continuidade da Clínica como de pais e ex-funcionários revoltados com os métodos empregados.


Método da Cotei divide opiniões
Alguns pais condenam e outros se mobilizam a favor

A Diretoria de Ações Descentralizadas de Saúde de São João Del Rei (Dads) já deu início ao processo que vai apurar denúncias de irregularidades e maus tratos a pacientes na Comunidade Terapêutica Interdisciplinar (Cotei), localizada no bairro Solar da Serra. O diretor da Dads, José do Rosário, disse que foram realizadas várias reuniões e, até a próxima segunda-feira, 27, estarão definidas as providências que deverão ser tomadas por órgãos de São João, entre eles a Vigilância Sanitária.

A Cotei foi alvo de uma inspeção feita por órgãos fiscalizadores da Saúde nos dias 10 e 11 de setembro deste ano. A vistoria constatou irregularidades (Leia quadro abaixo), sendo a principal delas a utilização de método considerado inábil, como o uso de um lençol de brim com velcro para imobilização e a suspensão da alimentação, para conter crises dos internos, na maioria portadores de autismo.

A promotora Eliane Fernandes do Lago Corrêa, responsável pelo inquérito que investiga as condições de atendimento da clínica, afirmou que pediu pareceres dos Conselhos Federais de Medicina e Psicologia sobre o método de contenção. Ela afirmou que vai enviar cópia do inquérito à Promotoria Criminal, que é o órgão que poderá instaurar inquérito sobre a morte de Wagner Siqueira da Silveira, caso ache necessário. A família de Wagner acredita que a morte do filho possa ter ligação com uma contenção feita na Cotei, horas antes.

A promotora disse que ainda não tem condições de adiantar qual o procedimento será adotado ao final do inquérito. Dependendo das apurações, ela pode ajuizar ação na Justiça, fazer um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o proprietário da clínica, José Raimundo Facion, ou pedir o arquivamento do caso. “Mas, paralelo a isso, a Vigilância Sanitária do município ou do estado pode interditar o local se achar necessário, já que tem poder de polícia administrativa”, informa.


Mobilização

Durante a semana, alguns pais de internos da Cotei se mobilizaram para tentar assegurar a continuidade do funcionamento da instituição, prevista para ser fechada no início de novembro deste ano. O movimento nasceu de um encontro realizado no último domingo, 29, entre pais e o proprietário da clínica, José Raimundo Facion, ex-diretor executivo da Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (Funrei) e atual professor da Universidade do Contestado, na cidade de Caçador (SC).

Estes pais afirmam que têm conhecimento dos métodos usados pela Cotei, mas defendem o funcionamento da instituição, uma vez que não conhecem lugar melhor para deixarem seus filhos. “Eu não deixaria meu filho lá, há cinco anos, se não confiasse nas pessoas e se soubesse que ele era maltratado”, diz Maria Augusta Campos de Menezes, mãe de Bruno, 24. Ela afirma que muitas vezes já teve que amarrar o filho na cama para que ele não se auto agredisse e que fazia isso sem as técnicas usadas na Cotei. “Durmo sossegada com o Bruno lá dentro”, revela.

Carlos, morador de Sorocaba (SP) e pai de Rita, internada na Cotei há três anos, narra o sofrimento da família durante o tempo de convivência com a filha e diz que as melhoras são evidentes depois da internação. “Muita prática é necessária para isso”, afirma, acrescentando que teorias elaboradas em mesas de escritório de nada servem. Para ele, o tratamento prestado pela Cotei devolveu à família “um sentimento de profundo amor por nossos filhos, que tínhamos perdido antes da internação”.

A advogada Marion Aranha Pacheco e o médico Mário Augusto Muggiati, de Curitiba (PR), pais de um paciente da Cotei, também são a favor da continuidade dos trabalhos e afirmam que “a Cotei faz verdadeiro milagre com os recursos de que dispõe”. Os pais de Vinícius, morto na época em que se tratava na Cotei, também defendem a instituição, afirmando que não acreditam que a morte do filho, causada por um desvio na traquéia, seja de responsabilidade da clínica.


A revolta de ex-funcionários

O caso Cotei teve grande repercussão na imprensa do Estado e chamou a atenção de várias pessoas que, durante a semana, telefonaram à Gazeta para fazer denúncias e se dispondo a falar sobre o caso. O casal Ieda e Antero Albino Campos Magalhães, pais de um ex-interno da Cotei, residentes em Tiradentes, trabalharam na montagem da clínica, ao lado de José Raimundo Facion, e dizem terem acreditado que o projeto tratava da construção de uma instituição sem fins lucrativos. “Pensávamos que poderia ser um lugar com atendimento especializado, uma moradia para os autistas”, relata Antero, que afirma que pagava mensalidade de R$1300 e que, com o tempo, foi desconfiando das irregularidades do local. O casal tirou o filho da clínica oito meses depois da internação, sem autorização da direção, que era contra. “Faltava segurança, responsabilidade e seridade”, denuncia. Antero afirma que, depois que levou o filho para casa, foi obrigado a evitar a estrada que ia para a clínica, pois o filho chorava e tentava mudar a direção do carro, temendo voltar para a Cotei.

Ieda denuncia a existência de casos de tuberculose, que foram omitidos dos pais, e falhas no tratamento do filho. “Não se pode confiar no Facion, que chegou a morder o nariz de uma interna que puxou um fiapo da sua roupa”, diz, acrescentando que o caso foi assistido por vários funcionários que narram que a menina teve que ser levada ao hospital, por causa do ferimento.

Na quinta-feira, 23, uma ex-funcionária disse à Gazeta que, no dia de folga do enfermeiro, o faxineiro era quem cuidava das crianças e dava as medicações à noite. “Eu achava um absurdo a clínica ficar na responsabilidade dele”, afirma, acrescentando que saiu da Cotei por não aceitar participar das contenções e por discordar de métodos tão agressivos. “Numa época de calor, eles colocaram uma criança vestida de roupa de lã em um tatame na quadra, exposta ao sol, para ver se ela reagia e tirava a roupa”.

Um ex-funcionário que pediu para não ser identificado denunciou a falta de higiene e suspensão de alimentação como método de punição e que, mesmo fora disso, a alimentação era insuficiente e que os internos passavam fome. Ele diz que crianças ficavam um dia inteiro sem comer e ele era obrigado a fazer jornadas de mais de 24 horas.

“Pessoas sem experiência eram contratadas e uma psicóloga da clínica receitava medicação pelo telefone”, relata, acrescentando que, por duas vezes, uma adolescente foi levada para o hospital em estado de coma por superdosagem e que a família nunca foi comunicada. “A gente levava tudo que achava errado ao conhecimento da psicóloga, mas não adiantava. Eu não concordava, mas fazia o que mandavam porque era obrigado. Se discordasse, ganhava advertência”, diz.


As irregularidades apontadas pelo relatório

O relatório oficial da inspeção feita na Cotei foi divulgado na semana passada e mostra que foram constatadas irregularidades como a ausência de enfermeiros e médicos de plantão, inadequação da cozinha e ausência de enfermaria segundo normas previstas por lei. Ainda foram encontrados medicamentos vencidos e ausência de segurança (existe uma piscina na área livre sem rede de proteção) para os pacientes.

A fiscalização também não encontrou prontuários dos pacientes. “O tempo médio de permanência não é calculado e não há registro de alta”, descreve o coordenador de Saúde Mental, José Cézar de Morais, completando que três médicos trabalham na clínica apenas como referência, com carga horária de uma hora semanal.

O método de contenção usado na Cotei foi o ponto considerado mais grave. “O método é baseado na contenção física através de um tecido de brim com velcro e na restrição alimentar”, denuncia José Cézar Morais, que diz que a metodologia é questionável, inábil e inadequada. Para ele, o movimento de Reforma Psiquiátrica preconiza que o portador de sofrimento mental receba tratamento o menos invasivo possível, que permita a reintegração social. “O tratamento deve respeitar os direitos humanos e incluir a construção de um projeto de vida para essas pessoas”, conclui.


Direitos Humanos

A Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais e a Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde), ligada à Secretaria Especial dos Direitos Humanos, foram acionadas pela família de Wagner Siqueira da Silveira.

A coordenadora geral da Coordenadoria, Isabel Maria Madeira de Loureiro Maior, afirmou que acompanha o caso desde a época da morte de Wagner e que vai cobrar do Ministério Público a verificação de que o direito das pessoas está sendo garantido. “Esse caso será acompanhado não só pela Coordenadoria Nacional, como também pelo Ministério da Saúde, que é de fato quem vai poder dar orientação técnica adequada à clínica, caso não seja fechada”, adiantou. Ela afirmou que vários casos semelhantes a este podem se repetir no país devido à falta de registros dos estabelecimentos, que funcionam na clandestinidade. “Infelizmente, a vida deste jovem está perdida e outras situações podem estar acontecendo ou acontecer se não soubermos criar um sistema de proteção”, observa, acrescentando que “são as tragédias que desencadeiam ações”.

O estabelecimento foi considerado clandestino, já que não possui alvará sanitário. Segundo técnicos da Coordenadoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado da Saúde, as internações foram suspensas e os atuais pacientes terão que ser transferidos.

A fiscalização da Cotei foi realizada em função de uma solicitação da Procuradoria Geral do Estado de Rio de Janeiro, que investiga a clínica e a morte de Wagner Siqueira da Silveira, 26. Segundo familiares, o rapaz ficou imobilizado por mais de três horas, sem acompanhamento de médico ou enfermeiro, chegando ao estado de convulsão e morrendo no dia seguinte, depois de ser internado no Hospital Nossa Senhora das Mercês, em São João del Rei.

A família acusa a instituição de negligência e afirma que o procedimento é agressivo, fere os direitos humanos e contraria o artigo 11 do decreto 44.045 do Conselho Federal de Medicina. O artigo determina que “um paciente em tratamento psiquiátrico só deve ser submetido à contenção física por prescrição médica, devendo ser acompanhado por um auxiliar do corpo de enfermagem durante todo o tempo que estiver contido”.

O proprietário da Cotei, José Raimundo Facion, nega a suspensão de alimentação e diz que o método de contenção através do lençol com velcro é o que há de mais moderno no mundo. Ele acredita ser vítima de uma perseguição política, já que grande parte dos internos é do Rio de Janeiro e alguns pais reivindicam que o tratamento de seus filhos na Cotei seja custeado pela Secretaria de Saúde do Estado do Rio. Para para não ter que arcar com tais custos, alguns representantes da Secretaria teriam iniciado uma campanha para difamar a Clínica.

 
 

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Atualizado em: July, 2006