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Foi
somente no fim do século XIX quando, diante das radicais mudanças sociais
rumo a modernidade instaura-se a escolaridade obrigatória.
De fato,
o desenvolvimento humano passou a ser avaliado a partir de parâmetros
inéditos e novos comportamentos começaram a ser exigidos.
A
Educação Inclusiva não surgiu ao acaso, ela é um produto histórico
de uma época e de realidades educacionais contemporâneas, uma época que
exige que nós abandonemos muitos dos nossos estereótipos e preconceitos,
na identificação do verdadeiro objeto que está sendo delineado.
A
Psicanálise, quando de seu surgimento, tentava resgatar o sujeito
histérico da exclusão social, na medida em que
possibilitava que os sintomas fossem escutados e entendidos para além de
seu encobrimento pelo mal estar físico.
No
paradigma da Inclusão proponho o mesmo modelo, escutar pais, educadores e
alunos, de maneira que o sentido seja entendido além de seu encobrimento
pelo mal estar da deficiência permanente ou temporária e suas vicissitudes
envolvidas.
Um
paradigma é um modelo mental, uma forma de ver o mundo, um modelo de
referência, filtrando outras percepções, conteúdos determinados, etc. Ele
estabelece, em suma, um modelo de pensamento e/ou de crenças através do
qual o mundo pode ser interpretado.
Para
WINNICOTT o modelo de prevenção inicia-se pelo conceito de
preocupação materna primária, o autor descreve como
sendo as primeiras atitudes que a mãe inicia ao planejar a inclusão do
projeto bebê/filho e posteriormente todos as demais providencias durante
a gravidez. As condutas prévias de cuidados, proteção, fantasias
destrutivas e amorosas começam a partir deste percurso. Neste momento as
fantasias podem ser elaboradas positivamente, favorecendo a criação de um
espaço interno imaginário (na mente materna primeiramente) para depois
aparecer um espaço externo real, aonde este ser humano será incluso e
aceito. Portanto, antes que exista o bebê concreto ele já está vivo na
mente da mãe, vai ocupando e conquistando um lugar de identidade. Neste
espaço imaginário, a mãe pode odiar seu bebê antes mesmo que ele a odeie,
porque ao permitir a entrada do novo, do desconhecido do diferente e
talvez “deficiênte” (quando há presença de sentimentos persecutórios
constantes), fere nosso narcisismo (nossa imagem de espelho perfeita e
ideal). Ao mesmo tempo que alimenta as fantasias do igual e perfeito,
aparece a ambivalência dos afetos: é a vez da luta entre amor e ódio, bem
e mal, perfeito e imperfeito, aceitar e rejeitar, etc...
Este
pressuposto teórico nos ajuda a compreender esta dinâmica relacional
humana entre a maternagem imaginária e maternagem ambiente que pode
acolher ou excluir: a força dos afetos destrutivos, aparecem através dos
conflitos, que são projeções de fantasias destrutivas e perigosos, a
defesa é o afastamento, a rigidez, o impedimento, e o distanciamento do
outro, que pode ser o bebê ou o portador de necessidades especiais.
Consideramos que poderão estar neste inter-jogo emocional outras demandas
( individuais, culturais, etc...) não pretendemos aqui ponderar de forma
reducionista, apenas olhamos esta situação por um vértice.
Se as
instituições sociais, escolares, familiares, etc.. quiserem se constituir
como espaços que acolham as diferenças a meta não deve ser necessariamente
enquadrar, mas sim ajudar o “diferente” a encontrar um lugar social,
escolar, etc... produtivo da maneira que lhe for possível, ou ainda,
auxiliá-lo a encontrar respostas por diversas vias, através de outras
formas de conhecer. O que chamamos de preocupação materna primária
, numa metáfora para a escola, os professores e funcionários se
prepararem para receber o aluno incluso. Lembremos que o desafio
psicanalítico foi, desde o início, propiciar a escuta das diferenças
e contribuir para que o sujeito possa encontrar seu bem estar dentro
delas.
Trabalhar com o portador de necessidades educacionais especiais exige a
disponibilidade (interna e externa – maternagem imaginária e
maternagem ambiente suficiente) da equipe administrativa escolar,
disponibilidade do educador, dos pais e do aluno.
Acredito
que talvez seja possível estabelecer um lugar, um espaço intermediário
entre a escola comum e a escola especial ou classe especial, com todas
suas implicações institucionais, pedagógicas e sociais.
O referencial Inclusivo está sendo entendido
por mim como um lugar que deverá ser construído gradativamente antes de se
construir um cidadão. A Escola Inclusiva deve tentar auxiliar, na medida
do possível, a constituir um sujeito cidadão, para uma
SOCIEDADE PARA TODOS.
Incluir é criar, criação no sentido das intersecções de afetos, áreas,
valores, conceitos, saberes e pessoas.
Precisamos rever nossa necessidade de desejar o outro conforme nossa
imagem, mas respeitá-lo numa perspectiva não-narcísica, ou seja, aquela
que respeita o outro, o não-eu, o diferente de mim, aquela que não quer
catequizar ninguém, que defende a liberdade de idéias e crenças.(FREUD,
1914).
Precisamos nos atentar para o fato do portador de necessidades especiais
estar incluso não o transforma em “normal” no sentido de que suas
peculiaridades estejam superadas, pelo contrário ele continua com suas
limitações que deverão ser respeitadas e atendidas. Neste momento entra a
capacidade afetiva e pedagógica do educador de perceber estas sutilezas.
FREUD
(1913) já dizia que a Pedagogia, a Política e a Psicanálise eram
profissões do impossível, porque precisamos nos deparar com as limitações
com o “desejo do outro”, justamente quando isto não acontece as formas de
massificação e autoritarismos são instauradas, para impor o saber pela
força, então encontramos uma ilusão de saberes!
Para que
tudo isto se modifique, não basta apenas nós trabalharmos com os conteúdos
cognitivos/informativos no processo de formação dos educadores para o
paradigma da Inclusão, pois se eles não tiverem o desejo do saber
instaurado, por mais conteúdos que possamos lhes dar, permanecerão na
mesma posição. Acreditamos que devemos sempre estar atentos com o fato da
impossibilidade, porque para aprender é necessário que a experiência seja
resignificada, posteriormente a tomada de consciência, que será sempre
incompleta e parcial. (LAJONQUIÈRE, 1999).
O que
torna uma aprendizagem livre é a possibilidade da presença da confusão,
do inesperado, porque derruba a teoria, abre para a reflexão e leva a
modificação da práxis, este é o maior medo dos professores, e cujo lugar
se encaixa o paradigma da inclusão com a entrada do portador de
necessidades educacionais especiais. (SEN 1999).
A
Psicologia Social vem nos ajudar a compreender a identidade dos
seres humanos como sendo atribuições de predicados e adjetivos
atribuídos pelo grupo social. No caso do portador de necessidades
educacionais especiais, ele carrega um estigma social, bem como
tantos outros grupos marginalizados pela sociedade. Entretanto, é
importante lembrar que o indivíduo não é apenas algo que lhe atribuem, mas
também o que faz e como faz.
Compreendemos a identidade do portador de necessidades educacionais
especiais, no paradigma da Inclusão tendo a possibilidade de pensar, de
ser e de fazer, resignificando sua identidade através do convívio
na diversidade. (HALL, 1997).
O portador
de necessidades educacionais especiais não deve então ser visto
isoladamente, mas como um ser em relação e portanto nas relações sociais
que o aluno deverá estar envolvido, sua identidade poderá ser
resignificada e concretizada de maneira positiva.
Para uma
Inclusão bem sucedida tanto depende do desejo do professor,
dos pais assim como do desejo do aluno querer fazer ou não esta mudança.
O poder
das políticas públicas poderá contribuir para criar espaços, assegurar
direitos e deveres, promover projetos mais eficientes, mas não dá garantia
nenhuma sobre uma verdadeira inclusão entre pessoas se de fato não nos
envolvermos. Envolver dá trabalho, leva a responsabilidade e compromisso,
é caminhar a passos curtos.
“Aonde
não exista afeto de fato não há relação humana possível e portanto não
haverá Inclusão”.
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