|
Home
Autistas.org
Famílias
Discussões
Autismo
No
Brasil
Nos EUA
Mercúrio x Autismo
Diagnóstico
Vacinas
Estatísticas
Escolas - Lista
Educação Especial
Fonoaudiologia
PECS
Terapias
Dieta
Instituições
Thimerosal
Protocolo de
Quelação
Associações Pais
Livros
Livro de
Visitas
Glossário
Videos
& Fotos
Profissionais
Denúncias
Jurídico
Legislação
Eventos
Downloads
Voluntários
Links
Mapa do Site
Fale Conosco
| |
|
”O brincar e o jogar da criança ao adulto" |
|
Uma visão
psicopedagógica |
Marina S. Rodrigues Almeida
Psicóloga e Psicopedagoga
E-mail
“O homem brinca e ele somente é um homem no sentido
Total do mund, quando brinca.”
(Schiller)
Introdução
Foi pensando em minha experiência clínica e institucional, como psicóloga,
pedagoga, e posteriormente psicopedagoga, que despertou-me o desejo de
investigar mais de perto as relações do “Brincar Infantil”.
Observamos nos últimos anos, que nunca se deu tanto destaque ao brinquedo,
como se vem dando ultimamente. As indústrias investem nesta área,
desenvolvem toda sorte de brinquedos eletrônicos, jogos, fazem comerciais,
propagandas, brindes em supermercado, até as lojinhas de um e noventa e
nove atacaram também, (com brinquedos muitas vezes sem qualidade , sem
fiscalização e controle do IMETRO. Evidentemente tudo isto tem um fim: o
consumo perverso. Descobriram uma fatia do mercado, as crianças e os
jovens, que são consumidores em potencial, manipulados, seduzidos,
ingênuos. Porém, constatamos que há o lado bom deste estímulo, mas não
encontramos nossas crianças brincando com espontaneidade e espírito
criador. Logo o brinquedo é descartado e querem outro, ou brincam um
pouquinho e depois vão mexer no que não deve. Por que será?
Notamos vários teóricos pesquisando e escrevendo a respeito, como o
brinquedo sendo um instrumento enriquecedor , possibilitando a
aprendizagem de várias habilidades.
No dia-a-dia, é comum ouvirmos comentários sobre o brincar, num tom
queixoso e esvaziado de significado: os pais comentam “Hoje meu filho não
foi para a escolinha, também não perdeu nada, só vai para brincar!”; ou os
professores falam “Aquela menina não tem feito nada, só pensa em
brincar!”. Portanto, o brincar parece estar associado à uma ação
irrelevante, ou pelo menos nada que tenha alguma importância para a vida
humana.
Os pais valorizam mais as atividades como: “Meu filho faz, natação,
inglês, ginástica, faz conservatório musical, teatro, computação,
etc....”. Estas atividades são importantes e necessárias, mas está
sobrando pouco tempo para a espontaneidade, para o brincar em conjunto,
para a fantasia.
A Psicopedagogia tem se constituído no espaço privilegiado para pensar as
questões relativas à aprendizagem. Sendo assim, está intimamente ligada ao
ato de brincar, como fonte de conhecimento.
Podemos dizer que, a capacidade de brincar faz parte de um processo de
desenvolvimento, sendo imprescindível para a sobrevivência psíquica e para
o avanço social do homem. Notamos isto na própria história antropológica
humana.
Sabemos pela maneira que uma criança, adolescente, adulto, brinca como
algo revelador de suas estruturas mentais, pensamentos, sentimentos,
interações, ou seja seus níveis de maturidade cognitiva, afetiva –
emocional e social.
Faço então uma pergunta: “O que acontece com o brincar; pois ora é tão
valioso ora é tão desvalorizado?”
O brincar e o jogar da criança ao adulto
Vejamos a origem das palavras:
- Jogar: do latim “jocare”: entregar-se ao; ou tomar parte no jogo de;
executar as diversas combinações de um jogo; aventurar-se ou arriscar-se
ao jogo; perder no jogo; dizer ou fazer brincadeira; harmonizar-se.
- Brincar: “de brinco+ar”; divertir-se infantilmente; entreter-se em jogos
de criança; recrear-se; distrair-se;saltar; pular; dançar, (...)
(Dicionário da Língua Portuguesa – Aurélio, 1986, pp. 286-98)
Percebemos que há uma dificuldade em definir os termos “jogar” e
“brincar”, pois ambos tem uma fronteira comum, indicando um grau de
subjetividade, em que estas atividades estão implícitas.
Segundo, BOMTEMPO (1987 p.13) “a atividade do brincar, geralmente é vista
como uma situação livre de conflitos e tensões, havendo sempre um elemento
de prazer. Também é uma atividade com um fim em si mesma, pois não há
resultado biológico imediato que altere a existência do indivíduo.”
O brincar da criança não é equivalente ao jogo para o adulto, pois não é
uma simples recreação, o adulto que brinca/joga afasta-se da realidade,
enquanto a criança ao brincar/jogar avança para novas etapas de domínio do
mundo que a cerca.
Precisamos saber que o brincar da criança é uma forma infantil da
capacidade humana de experimentar, criar situações, modelos e como dominar
a realidade, experimentando e prevendo os acontecimentos.
Quando induzimos a criança a brincar com jogos educativos, chega um
momento em que ela interrompe dizendo: -“Bem agora, vamos brincar, tá?”.
Portanto a criança não estava brincando no verdadeiro sentido do verbo,
quando percebe o objetivo e intenção pedagógica que a cansou, interrompe,
pois o brincar é destituído de qualquer objetivo externo e determinado,
brincar requer espontaniedade, criatividade, liberdade com limites.
A brincadeira a partir dos 2 aos 4 anos, desenvolve-se com base nas
organizações mentais, ou seja a simbolização. Diferencia o “eu” do outro,
fantasia de realidade.
No início apresenta características de “pensamento mágico pré conceitual”,
ou seja a a criança dá vida aos objetos, atribui sensações e emoções,
conversa com eles. É também uma brincadeira solitária, na qual vive
diferentes papéis. Pouco a pouco, ensaia um simbolismo coletivo, exigindo
dela esforço e descentralização para acrescentar o outro e poder continuar
brincando.
A partir dos 4 anos, a brincadeira vai adquirindo um aspecto mais social
surgindo as brincadeiras com regras, onde o combinado deve ser respeitado.
Na compreensão da brincadeira simbólica a criança revela situações
carregadas de emoções e afetos, as organizações lógicas : classificações,
seriações, quantidades, cores, cenário onde aparece seus medos,
dificuldades, tensões, inversão de papéis, etc...
Huizinga (1980), filósofo da história em 1938, escreveu seu livro “HOMO
LUDENS” no qual argumenta que o jogo é uma categoria absolutamente
primária da vida, tão essencial quando o raciocínio (HOMO SAPIENS) e a
fabricação de objetos (HOMO FABER), então a denominação HOMO LUDENS, é
cujo elemento lúdico está na base do surgimento e desenvolvimento da
civilização.
O autor define jogo como: “uma atividade voluntária exercida dentro de
certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente
consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo,
acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de
ser diferente de vida cotidiana.”
Em seu livro Huizinga nos conta que:
Nas sociedades antigas, não havia destinação entre jogos infantis e
adultos, eram coletivos.
O jogo era considerado como um vínculo entre as pessoas, grupos, classes
e gerações, entre passado e futuro. Gradualmente este caráter foi sendo
perdido ao longo da história, transformando-o mais individual.
A influência educacional, religiosa e social altera os valores morais,
considerava a criança como, um ser não maduro para convívio com adulto,
sendo que deveria ser submetida a um “regime especial”.
Os jogos e divertimentos coletivos foram abandonados e o ato de brincar
desvalorizado, por não ter função aparente.
Com o surgimento do capitalismo esta idéia teve mais força, pois não podia
ser associado a produção e trabalho, se tornou algo inútil.
O importante no brincar não é tanto como a criança, o jovem ou o adulto
brinca, mas sim como ela se envolve, lidando de forma cada vez mais
criativa e interativa com seu mundo interno e externo.
O fato de uma criança jogar xadrez, onde há presença de regras explícitas,
pode ser considerado também por ela como uma brincadeira, ou o fato de
brincar de boneca aparentemente sem regras explicitas, possa ser uma
reprodução de papéis sociais, pré estabelecidos por ela.
Os pais e educadores devem levar em consideração os seguintes aspectos ao
observar a criança ou o jovem brincando:
Ela tem brincado ultimamente? Quanto tempo fica nesta atividade? O que
faz com aquela brincadeira?
Brinca sozinha? Brinca com alguém? Brinca em grupo?
O que ela está expressando?
Quais as regras?
Como está brincando?
Criou novas regras?
Permaneceu em regras impostas?
Qual sua reação?
O que aparece neste jogo?
Para que serve este jogo ou brincadeira?
Como cuida dos brinquedos?
Quais os brinquedos prefere?
Na verdade não existem delimitações claras sobre o ato de brincar e jogar
e sim uma fusão entre as duas atividades. Quando uma criança não brinca,
não se desenvolve, não se aventura em algo novo, desconhecido, isto é
muito preocupante. Se a criança brinca está revelando ter aceito o desafio
do crescimento, de ter a possibilidade de errar, de tentar a arriscar para
progredir e evoluir.
Enquanto pais, educadores e profissionais afins, precisamos ser mais
tolerantes com as atividades do cotidiano e criarmos um espaço para o
lúdico, para nós também podermos sonhar, fantasiar, brincar.
Bibliografia
Bomtempo, E. aprendizagem e brinquedo em Witter, G.P. e Romeraco, T.F.
“Psicologia da Aprendizagem”
Ed. EPU.
Erikson, E.H. Infância e Sociedade”
Ed. Zahar
Huizinga,J. “Homo Ludens – O Jogo como elemento da Cultura”
Ed. Perspectiva
Lebovici e Diatkine, R. “Significado e Função do Brinquedo na Criança”
Ed. Artes Médicas
Oliveira, P. S. “O que é brinquedo ?”
Ed. Brasiliense
Benjamin, N. “Reflexões: A criança, o brinquedo e a educação”
Ed. Summus
Oliveira, V.B. “O símbolo e o brinquedo”
E “Avaliação Psicopedagógica da Criança de 0 a 6 anos”
Ed. Vozes
Piaget, J. “A Formação do Símbolo na Criança”
Ed. Guanabara Koogam
Fernandes, A. “Inteligência Aprisionada”
Ed. Artes Médicas
|
|